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12 Horas Para Sobreviver: Expurgar e Purificar, um dever divino

  • Foto do escritor: +Q90m
    +Q90m
  • 17 de out. de 2020
  • 4 min de leitura

Se existe uma parte da construção ideológica, tanto por parte da mídia e do próprio Estado para a naturalização e banalização extrema da violência, a religião entra no processo para legitimar culturalmente e de forma "divina" a natureza e violência do homem.

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Charlene "Charlie" Roan (Elizabeth Mitchell), ainda jovem, teve a família assassinada por um psicopata que escolheu sua família para torturar durante a noite do expurgo.18 anos depois, e agora senadora, Roan é candidata à presidência dos EUA com a principal promessa de acabar com a noite de Purificação. Sentindo-se ameaçados, a NPFA (Novos Pais Fundadores da América) decidem por um fim na vida da senadora na noite de crime. Sabendo da ameaça, Roan conta com a proteção do seu segurança, o Sargento Leo Barnes (Frank Grillo) - protagonista do filme anterior. No outro lado da cidade, Joe Dixon (Mykelti Williamson) e seu assistente Marcos (José Juliano Soria) são obrigados - por conta do aumento do seguro – a permanecer durante a noite em sua pequena loja e protegê-la de saqueadoras.

No Brasil “12 horas para sobreviver: o ano da eleição” é a terceira parte da franquia distópica (mas nem tanto) “The Purge” iniciada em 2013. O longa segue o mesmo ritmo do seu antecessor, com cenas de suspense submersas em sequências de ação envolventes. Não há grande diferença na experiência do segundo para o terceiro. O que muda aqui é o objetivo principal do roteiro que agora está envolto em manter um personagem (a senadora Roan) em segurança para o dia das eleições. O foco deixa de ser, necessariamente, a vivência da classe mais baixa e suas minorias em relação à noite de crime para um olhar mais voltado a todos os tramites políticos que cercam a população. Aqui o debate político/ideológico é abraçado com mais clareza, apesar de não ser trabalhado com a força que potencialmente tem. Os grupos de oposição à noite de crime continuam usando as mesmas justificativas em relação aos filmes anteriores (Política de extermínio contra os mais pobres e imigrantes; forma de lucro do Estado com menos gastos durante o resto do ano; etc.).

As questões técnicas de um filme que se propõe a ser de ação/suspense são respeitadas sem muitos destaques. As atuações também cumprem bem seus papéis com relação ao roteiro. Os atores conseguem passar um mínimo de envolvimento que nos faz se importar com seus personagens. Existem alguns pequenos furos que não são explicados, ao que parece não foram percebidos durante sua produção, mas nada que incomode a experiência.


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Como dito acima, essa terceira parte da distopia agora aposta em questões políticas com mais transparência. Logo depois da cena de abertura somos apresentados pela primeira vez aos “Novos Pais Fundadores”. Não é uma surpresa se deparar com homens, velhos, brancos, e provavelmente heterossexuais. O estereótipo de um grupo mais conservador e privilegiado da sociedade. Quando esse grupo decide tirar a vida da senadora Roan, logo ficam claro quais são suas tendências ideológicas. São homens corruptos, que sustentam uma política protofascista disfarçada de democracia plena. Já se torna um tanto curioso que no início do filme o candidato da NPFA para presidente seja o ministro Edwidge Owens (Kyle Secor), um pastor. Considerando o que o cristianismo prega, ter um cristão como candidato de algo que defende e acredita na matança, já é em si uma contradição. Mas isso nem de longe é apenas ficção, já que na realidade atual, uma grande parte da igreja, principalmente da ala protestante é apoiadora de grupos reacionários de extrema-direita.

Se existe uma parte da construção ideológica, tanto por parte da mídia e do próprio Estado para a naturalização e banalização extrema da violência, a religião entra no processo para legitimar culturalmente e de forma "divina" a natureza e violência do homem. “Expurgar e purificar”. É um dever divino, para livrar a ira e o ódio da alma e do corpo, uma necessidade, não só humana, mas espiritual. Matar é aceitável para fugir dos seus próprios pecados individuais.

Com o capitalismo no seu auge de exploração, é exposto como as empresas privadas lidam e se usam daquela noite para obter vantagens na busca por mais lucros. O aumento do preço do seguro da loja, um dia anterior ao Expurgo, obrigando Dixon a ficar na loja por não ter como pagar expõe isso. São interesses diferentes, entre o grupo que apenas quer lucrar, e o que quer sobreviver. É retratado também como aquela política começa a se tornar passível de admiração em outros países. O “Turismo da Morte”, aonde pessoas de fora vão aos EUA para participar da noite do Expurgo, mostra como o expurgo se torna normal e aceitável perante outras sociedades capitalistas.

Em relação às pessoas marginalizadas e que mais sofrem com a noite do Expurgo acompanhamos formas de resistência, como o sistema de acolhimento feito por voluntários para ajudar os feridos da noite. Médicos, enfermeiros entre outros ajudam como podem. Esse grupo é organizado por Dante Bishop (Edwin Hodge), líder da resistência/oposição contra a NPFA. De acordo com ele, aquele é o modo que essas pessoas encontraram para ir contra um sistema do qual não concordam. Existem certas limitações em como Bishop pensa combater a NPFA. Ele não pensa em uma vitória democrática como a Senadora Roan, mas também não tem uma resistência orgânica por parte das pessoas, apesar de ser o principal porta voz de uma grande parcela delas. Não ter organicidade das pessoas – que no caso seria o grupo excluído – acaba por tirar força da sua própria tentativa de resistir.

Em síntese, The Purge: Election Year reforça novamente algumas premissas propostas em seus filmes anteriores. Embarca em uma problematização e exposição da verdadeira política da NPFA, um grupo reacionário e extremista que visa principalmente às manutenções de privilégios, manutenção do poder e mais excedente de lucros em favor da morte de inocentes sempre obrigados a permanecer à margem da sociedade.

- Pedro Silva

12 Horas Para Sobreviver - O Ano da Eleição (The Purge: Election Year) ANO: 2016 PAÍS: EUA CLASSIFICAÇÃO:16 anos DURAÇÃO:132 min DIREÇÃO: James DeMonaco ROTEIRO: James DeMonaco GÊNERO: Suspense, Ação ELENCO: Frank Grillo, Mykelti Williamson, Ethan Phillips, Elizabeth Mitchell

 
 
 

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