A Primeira Noite de Crime: Some do Meu Bairro!
- +Q90m
- 24 de out. de 2020
- 5 min de leitura
A franquia The Purge ainda tem grande potencial e pode trazer outras diversas reflexões acerca de governos de extrema-direita e seus métodos para continuar lucrando e explorando a população de classes mais baixas.

Em meio a um momento de crise orgânica (econômica, moral, civil, etc.), um novo partido político, a NPFA (Novos Pais Fundadores da América) decide colocar em teste uma experiência que, segundo eles, pode salvar os Estados Unidos do fracasso iminente. Orientados pela Dra. May Updale (Marisa Tomei), uma pesquisadora social Behaviorista, defendem a possibilidade que a população expulse a agressão por uma noite. Em Staten Island, pessoas em situação de pobreza aceitam participar da experiência em troca de dinheiro. Entretanto, a experiência não sai como o esperado pela NPFA forçando o partido a tomar medidas extremas para que a noite de Expurgo seja um “sucesso”.
Como o último filme (até agora, sendo que o quinto já se encontra confirmado.) de The Purge, farei uma análise, tanto do quarto filme, como da franquia como um todo. Cheguei à conclusão de que tenho uma relação de amor e ódio com The Purge. Amor por todo o potencial de problematização que a experiência do Expurgo pode trazer. Ódio porque a cada filme, esses potenciais são cada vez mais desperdiçados. O conceito que James DeMonaco trouxe em 2013 ao tornar legal qualquer crime durante 12 horas, explicitando que os nossos comportamentos éticos e morais podem ser passiveis de mudanças à barbaridade quando esta é aceita socialmente, trouxe grandes questionamentos e uma capacidade ampla de possibilidades para se pensar os comportamentos sociais e individuais nesse tipo de realidade. Em cada um dos filmes, alguma possibilidade foi trabalhada; uma família rica e as contradições da sua escolha em apoiar o expurgo; no segundo, a luta da classe mais pobre em sobreviver às 12 horas com quase nenhum recurso; no terceiro as questões políticas em busca do fim do Expurgo.
Mesmo com todas as possibilidades amplas de discussão, os filmes querendo ou não, ficam no raso de um desenvolvimento. Infelizmente, com o passar dos filmes, eles foram caindo em um comodismo que aos poucos enfraquece a experiência sendo um tanto repetitivo – esse último em determinado momento tende a ser um pouco cansativo. E isso não tem a ver com o seu baixo orçamento, já que isso não é critério para uma boa produção. Coringa (2019) se tornou tão impactante justamente por fazer uma reflexão social, colocando em pauta a relação entre indivíduo e sociedade, revelando assim um roteiro bem desenvolvido. The Purge tem o mesmo potencial.
A Primeira Noite de Crime se propõe a explicar como surge a noite que fica conhecida como Expurgo e como as pessoas se tornam adeptas desse "evento". Diferente de seus antecessores, esse sustenta uma boa aura de suspense junto à ação. Creio que neste ponto o filme não peca tanto. Existe alguns furos de roteiro, mas todos releváveis. As atuações não apresentam nenhum destaque e o roteiro não se preocupa em desenvolvê-los, pelo contrário, na correria para começar a noite do Expurgo, os personagens são desenvolvidos de uma forma apressada e o nosso apego por eles se torna um tanto artificial. Em falar no roteiro, uma coisa complicada é seus frequentes diálogos expositivos. São muitos diálogos para dizer o mesmo, para explicar algo que já está evidente, ou insistir em uma conexão com os personagens que não funciona. São diálogos pra criticar o governo de um lado, para criticar de outro, mas sem uma verdadeira articulação com a situação que os personagens estão enfrentando. O figurino é carregada de uma simbologia em relação a grupos de suprematistas brancos – Klus Klu Klan, nazistas – para reforçar a ideia de que a Noite do Expurgo tem por objetivo a limpeza e o extermínio étnico de negros e latinos (apenar dessa decisão gerar uma contradição no roteiro. De onde esses grupos vieram? Sempre existiram em Staten Island?) O filme também não explica o que seria o principal, a meu ver: a origem do partido da NPFA. Como eles surgiram? Quem são? Temos algumas pistas no começo do filme, mas nada mais que isso.

Como dito acima, e o que foi visto no filme anterior, os “Novos Pais Fundadores” são homens, que fazem parte de um grupo mais conservador e privilegiado da sociedade. Se dizem ser diferente dos democratas e republicanos com uma nova alternativa para resolver a crise orgânica¹ que o país está enfrentando. Esse grupo recebe o apoio de empresas privadas para conseguir implementar sua experiência em Staten Island. Só com essas informações já podemos perceber em um grupo mais voltado à políticas fascistas. É relativamente simbólico que sempre antes do Expurgo o anúncio nacional fale “Que Deus esteja com você”. Laicidade pra que? Para a NPFA, a única forma de resolver os problemas estruturais do país – econômico, desemprego, violência, etc. – é a diminuição da população que se encontra em uma superlotação. O Expurgo seria uma espécie de controle populacional feito pela própria população sem a interferência direta do Estado – mesmo esta interferência existindo. A noite do Expurgo não teria tido sucesso sem essa intervenção. Como observado, a primeira resposta a experiência em Staten Island não é a matança desenfreada, mas uma noite de saques, furtos e muita festa. A própria NPFA se usa da desigualdade para manter as pessoas na ilha, o pagamento de uma quantia em dinheiro para quem ficar, e um bônus para quem expurgar, também mostra como os homens no poder estão dispostos a jogar.
É interessante pensar em como essas relações de escolha não estão restritas ao indivíduo como uma decisão livre e simplesmente subjetiva. A principal motivação das pessoas em permanecer na ilha é a questão do dinheiro. O dinheiro que no capitalismo é o valor de troca que garante o valor de uso, ou seja, garante as necessidades materiais – comer, vestimenta, moradia, etc. Nesse sentido, as pessoas não tinham muitas possibilidades de escolhas. Dessa forma, a sociedade não deixa de influenciar nas decisões individuais daqueles sujeitos. Acontece o mesmo quando a experiência falha, pois as pessoas não seguem as expectativas que a experiência pedia. A objetividade – a permissão para matar – não fez das pessoas assassinas, só porque tinham a oportunidade. Elas tinham controle sobre suas decisões individuais.
Em síntese, a franquia The Purge ainda tem grande potencial e pode trazer outras diversas reflexões acerca de governos de extrema-direita e seus métodos para continuar lucrando e explorando a população de classes mais baixas, principalmente pretos e latinos que estão, historicamente sempre a margem da sociedade por problemas estruturais e históricos. Junto a isso, a franquia tem uma grande potencialidade de discussões tanto em nível moral como ético que infelizmente é desperdiçada.
- Pedro Silva
Notas:
1 - Se caracteriza por uma crise tanto no âmbito econômico como social, onde as pessoas estão insatisfeitas com as políticas de Estado
Para ver mais: A Primeira Noite de Crime: buscando respostas
A Primeira Noite De Crime (The First Purge) ANO:2018 PAÍS:EUA CLASSIFICAÇÃO:18 anos DURAÇÃO:97 min DIREÇÃO: Gerard McMurray ROTEIRO: James DeMonaco
GÊNERO: Ação, Suspense ELENCO: Marisa Tomei, Lex Scott Davis, Y'lan Noel
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