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A Vida Invisível: “Deveria ter te trancado no quarto e engolido a chave”

  • Foto do escritor: +Q90m
    +Q90m
  • 25 de abr. de 2020
  • 9 min de leitura

A vida invisível trata da invisibilidade do feminino, das questões patriarcais, e de como essa instituição estrutural é capaz de desgraçar a vida de uma mulher


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Guida (Julia Stockler) e Eurídice (Carol Duarte) são irmãs que constantemente buscam realizar seus sonhos. Vivendo no Rio de Janeiro dos anos 1950, moldadas por normas sociais, são cruelmente separadas e privadas da presença uma da outra em suas vidas. Invisíveis em uma sociedade patriarcal e conservadora, elas lutam dia a dia seguindo em frente na esperança de se reencontrar.

A Vida Invisível é uma adaptação do livro “A vida invisível de Eurídice Gusmão” de Martha Batalha e dirigido por Karim Aïnouz. É inegável o talento do brasileiro para conduzir filmes com um nível de delicadeza e profundidade tão bem articulado com seus personagens, sempre tocando fortemente em quem os assiste.

A começar por alguns detalhes técnicos, o filme desfruta de excelente adaptação cenográfica junto ao figurino do Rio de Janeiro na década de 1950. A constante presença de flores, plantas e verde sempre relembrando a realidade brasileira como um espaço tropical. Suas personagens, constantemente estão suadas ou molhadas trazendo o nosso clima quente à tona. É um cuidado com os detalhes que poucos têm. O trabalho da diretora de fotografia Hélène Louvart, junto com Aïnouz é conjuntamente eficiente para dar o teor de passado que o filme exige. Os jogos de cores intensos como, por exemplo, o vermelho vibrante na abertura do filme, ou os tons mais escuros e fechados quando as protagonistas estão sofrendo de alguma forma nos impactam de forma eficiente.

O filme também conta com incríveis e lindas atuações, principalmente de Julia Stockler e Carol Duarte. O que é um filme sem seus atores e o que seria desse filme sem essas mulheres. Ambas as atrizes conseguem entregar toda carga emocional que suas personagens exigem. É uma relação tão bem desenvolvida pelas atrizes que nos prende logo nos minutos iniciais. A intimidade e companheirismo entre as duas como irmãs é lindo de se ver, o que dá uma veracidade impecável.

Carol Duarte dá à Eurídice, inicialmente um insegura e dependência constantemente da irmã. Contudo, quando se vê sozinha, e levada à constantes conflitos internos entre fazer o que a sociedade lhe exige – principalmente seu pai – ou a seguir o sonho de estudar música e se tornar uma pianista. Entretendo, o que Julia Stockler faz como Guida é algo único. Diferente da irmã, Guida já apresenta desde o começo um constante desconforto com a sociedade em que vive. Ela é decidida, independente, questionadora perante sua realidade. A evolução de Guida é linda e, por conta de toda a virada em sua vida - desde a desilusão amorosa seguida da "perda" da família e irmã. A relação de Guida com Filomena (Bárbara Santos), que começa como uma simples afinidade entre as duas, cresce de tal forma a se tornar uma verdadeira fortaleza uma para a outra. A forma como a personagem reage a todas as suas dificuldades é doloroso, mas de certa forma revigorante. Você torce a cada instante por sua felicidade. Bárbara Santos, Gregório Duvivier e Maria Manoella também se destacam em seus papeis. A participação de Fernanda Montenegro ao final fecha com chave de ouro o brilhantismo de atuações que esse filme nos presenteia.


CONTÉM SPOILER

Um Filme Denso, Doloroso e Pesado

Como já explicitado, o filme é um relato de uma relação de amor, amizade e perdas entre as irmãs, Guida (Julia Stockler) e Eurídice (Carol Duarte). Suas personalidades, apesar de diferentes - talvez até opostas -, revelam um amor recíproco inegável. Ambas jovens, filhas de uma família tradicional de moral conservadora, típico de padrões de classe média da época. O pai é o provedor da casa, sua esposa a dona do lar que junto as filhas realizam os trabalhos domésticos - que é basicamente o deverão fazer após casar. O longa tem como problemática mostrar as várias faces do patriarcado, o poder do homem como algo natural e legitimo.

Diversas questões são abordadas em "A Vida Invisível". Por exemplo, o papel da mulher como meramente decorativa e doméstica, como já citado; os diferentes tipos de violência - física, moral, psicológica - vivenciados por elas; o peso moral que o Estado e a Religião têm sobre o corpo da mulher; de como suas subjetividades e particularidades não são levadas em conta. Gostaríamos muito de se dedicar a todas as questões presentes no filme, mas não vamos aqui nos ater a descrever meramente a história do filme, mas em explorar alguns desses pontos que ainda hoje são presentes na vida das mulheres:


* Sexualidade

Uns dos primeiros pontos que notamos é o "tabu do sexo". À mulher não é ensinada a falar sobre sexo, muito menos poder sentir prazer com o ato. Quando Guida (Julia Stockler) fala da experiência que teve ao receber sexo oral do namorado e que sentiu prazer, é algo completamente novo e diferente para ela. Entretanto, é um assunto que não volta ser falado no filme, pois o sexo nos momentos posteriores se torna algo apenas para satisfazer o homem dentro do casamento.

É comum ainda hoje nos depararmos com essas situações vividas por Guida. Quando ela retorna da Grécia - desiludida por ter acreditado em um homem que havia lhe prometido amor e uma vida diferente -, grávida, seu pai à escorraça de casa. No auge de seu poder como patriarca, diz que sua honra foi quebrada e que não pode admitir em sua casa uma mulher grávida e sem marido. A mãe, pouco pode fazer pela filha já que é também uma vítima do patriarcado e do marido. Quando Ana Gusmão (Flavia Gusmão) vai em busca de ajudar sua filha, Manuel (António Fonseca) a repreende dizendo: “se você sair pela porta, que não volte mais”. Como condenar essa mulher que não conhece outra vida, sempre vista de forma secundária e submissa, a dona de casa, que limpa, lava e seca, que não tem voz, que nesse contexto, não tem a possibilidade de desenvolver suas capacidades, habilidades e sonhos. Quantas adolescentes são expulsas de casa ainda hoje por seus pais, quantas dessas meninas não recebem apoio de suas mães? O medo de enfrentar o desconhecido, de ter que enfrentar novas inúmeras dificuldades, faz com que essas mulheres cometam violência umas contra outras.

Com Eurídice (Carol Duarte) o patriarcado segue da mesma forma. A personagem tem um talento inato para tocar piano, seu sonho é entrar em um conservatório de música e se tornar uma profissional. Entretanto, ela tem de seguir o exemplo de sua mãe, e ser uma dona de casa exemplar: lavar, secar, limpar, além de ser uma ótima esposa. Em plena década de 1950, vinda de uma família extremamente tradicional, seu destino não podia ser diferente.


* Violência Conjugal

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Mas o que é o casamento? Quando Eurídice está prestes a se casar com Antenor (Gregório Duvivier), ela e Zélia (Maria Manoella) conversam dentro de um banheiro. Eurídice relata nunca ter visto seu futuro marido nu. Esse relato, claramente é um reflexo da castidade, de uma visão religiosa e temporal de que a mulher tem que se casar pura, em todos os sentidos. Em seguida, vem a cena da noite de núpcias. Eurídice e o marido estão no quarto, ambos bêbados. Eurídice se sente mal e vai ao banheiro. Antenor a segue deixando ela visivelmente desconfortável e com medo. O que vemos a seguir é uma cena de violência, que hoje entendemos como estupro conjugal.

O estupro conjugal, é vivenciado por muitas mulheres. Todas nós sabemos de alguém que passou por isso, mãe, avó, tia, uma amiga... talvez esse seja o ponto mais inviabilizado. Sabe aquela vez que você transou com seu "companheiro" só porque ele estava insistindo com jeitinho, mesmo que você não estivesse afim? Ou aquela vez que seu marido disse que ia procurar coisa melhor fora e você se sentiu obrigada a ter relações? Indiretas, chantagem emocional, geralmente são utilizados quando não queremos, mas acabamos cedendo. Se sentimos pressionadas ou até mal por simplesmente não querer sexo naquele ou em determinado momento. Atenção! Não querer sexo é normal, não torna a mulher menos desejável, não nos torna fracas ou menos mulher, e reconhecer isso talvez seja o primeiro passo para dizer não! Quando você não quer fazer sexo e mesmo assim você se sente forçada porque é seu marido ou namorado, isso não deixa de configurar como estupro. O fato de você ser casada não dá o direito de seu companheiro fazer o que ele quiser. O corpo é seu, e ele não pertence a ninguém mais, só a você.

Depois do estupro, de frente ao espelho, Antenor mostra sua aliança junto à Eurídice e sorri. A primeira coisa que nos vem à cabeça é: “Agora você é minha!”. Em casamento monogâmico regido pela lógica patriarcal é isso que um aliança representa, um símbolo de propriedade do homem.


* A Invisibilidade da Mulher

O casamento de Eurídice é a representação da total invisibilidade da mulher no patriarcado. Ali, todos os seus sonhos e desejos ficam em último plano, sempre deixados para trás, em nome de sua família. Em todos os momentos que Eurídice tenta colocar seu desejo à frente, logo lhe é jogado uma carga de remorsos. Agora, sua família e seus afazeres domésticos estão à frente de qualquer sonho ou vontade. Estes vão sendo abafados e empurrados para um limbo, de onde eles nunca deveriam sair.

Ainda hoje nos deparamos com isso. Quantas mães não estão em casamentos infelizes por medo de perde os filhos ou de não ter condições de criá-los sozinha? Quantas mulheres não adiaram o sonho de entrar na faculdade por ter um filho sem suporte familiar? A vida da mulher é constantemente permeada por sucessivos “depois eu”. "Depois que meu filho tiver mais velho eu volto a estudar", "Depois que sair da casa dos meus pais eu faço o que eu quero". Guida, depois de muito trabalho, sonhando em vê a irmã e juntando dinheiro para isso, tem que escolher priorizar o filho. Logo depois, o próprio Estado se encarregou de barrar seu sonho, pois ela só poderia viajar com filho com a autorização do pai, mesmo ele nunca o tendo assumido...


* O Controle Sobre o Corpo da Mulher: Aborto e Maternidade Forçada

Assuntos como o aborto e maternidade ainda são condenados, no filme ambas as irmãs lidam com o assunto. Em dado momento, Eurídice descobre estar engravida, contra a sua vontade - pois seu marido quebra um acordo que tinham estabelecido para não ter filhos. Ao saber do resultado positivo de sua gravidez, vai à casa de Zélia (Maria Manoella) e lhe conta sobre o resultado e a sua vontade em abortar. Nesse momento, Eurídice se depara com as seguintes frases: “Não, isso é pecado” e “Não, isso é crime”. Essas duas frases - ditas por outra mulher -, revelam os dois pesos institucionais de controle do corpo de uma mulher: a Igreja e o Estado. Ambas as instituições lhe tiram seu direito de escolha. Desse modo, compreendemos que seu corpo não lhe pertence.

Não dá para julga uma mulher que simplesmente está reproduzindo o que lhe foi ensinado durante a vida toda. Já Guida se vê sozinha, grávida sem ninguém por perto, seja sua família ou o pai do bebê. Ao dar a luz, sua primeira atitude é abandoná-lo, pois a maternidade não foi uma escolha sua. Sem levar em conta todas as dificuldades que é criar um filho sozinha e sem apoio nenhum.


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“Família não era sangue, família era amor”


Contudo, Guida encontra o apoio que precisa em Filomena (Bárbara Santos), uma mulher negra que vive sozinha e que cuida das crianças da comunidade para que outras mulheres possam trabalhar. Guida percebe, ao longo do tempo, que sua família é Filomena, a mulher que lhe acolheu e lhe recebeu quando ninguém mais o fez. Filomena se torna para Guida, a mãe, o pai e a irmã que ela havia perdido. Essa família composta por essas mulheres, que se apoiam e se cuidam representam o real sentido de sororidade.


* Trabalho

Todas as mulheres dessa história ou são donas de casa (trabalho não remunerado) ou são mal remuneradas - sempre acompanhado de preconceito machista. Guida, por exemplo, trabalha em uma fábrica durante a semana e como diarista no sábado como forma de compensar a mal remuneração. Os valores morais conservadores da época junto a negação de certos espaços majoritariamente masculinos são direcionados a Guida com comentários como: “Você devia agradecer de ter um emprego como esse... uma mulher como você”. Comentário nitidamente fazendo referência ao fato de Guida ser mãe solo e não ser casada. Fora isso, essas mulheres ainda eram tratadas como não mais “adequadas” para casar, mas apenas para “curtir”. É importantíssimo pensar como essa questão da classe muda a visão e a experiência de Guida com relação a sociedade, pois aqui ela sente a realidade de maneira diferente da irmã. Além disso temos Eurídice, que ao passar para a conservatório de música é confrontada pelo marido que fala ironicamente que agora ele teria que "por um pano na cabeça e varrer o chão". Reforçando mais uma vez o que ela deveria priorizar: casa, filha, marido.


A vida Invisível é um filme emocionante sobre o que é ser uma mulher na sociedade que nega tudo a elas. É um filme sobre duas irmãs que tinham uma a outra como porto seguro, mas que são friamente separadas lhe restando apenas as lembranças, suas esperanças e o amor caloroso uma pela a outra que as mantiveram firmes em seus destinos. Apenar de todas as desventuras, podemos tirar algo lindo desse filme. Por baixo da dura realidade dessas mulheres, contemplamos um amor que ultrapassa mentiras, que ultrapassa o tempo. Eurídice e Guida, passaram suas vidas separadas, mesmo com vivências completamente diferentes, com sofrimentos e alegrias momentâneas ou não, o sentimento delas sobreviveu a tudo.

- Dorotéia Bandeira, Pedro Silva e Raianny Câmara

A vida invisível Ano: 2019 País: Brasil Classificação: 16 anos Direção: Karim Aïnouz Roteiro: Murilo Hauser Elenco: Fernanda Montenegro, Júlia Stockler, Carol Duarte, Maria Manoella, Bárbara Santos, Gregório Duvivier

 
 
 

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