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Circle: Tudo Deve Ser Posto Em Discussão

  • Foto do escritor: +Q90m
    +Q90m
  • 28 de mar. de 2020
  • 4 min de leitura

O destaque de Circle não está no cenário, direção ou nas atuações, seu principal mérito é a proposta criativa do roteiro de discutir pautas políticas e sociais a partir de uma premissa simples.

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50 pessoas acordam em um lugar sem saber como chegaram ali. A cada dois minutos, um raio é disparado de uma esfera no centro da sala matando quem ela acerta. Logo as pessoas naquela sala se dão conta de que podem escolher quem vai morrer pelo raio por meio de uma votação. Agora, todos ali, para garantir sua sobrevivência disputam ideias cujo objetivo é eliminar aqueles que “merecem morrer” e escolher a única pessoa que “merece viver”.

Circle é um dos filmes que nunca sai do catálogo da Netflix e que pouco damos atenção. Eu mesmo era um dessas pessoas até ver uma crítica sobre Circle que me faz ter curiosidade em assisti-lo. Em uma primeira análise é possível dizer que é um filme bem objetivo, que entrega sua premissa nos momentos iniciais e já te prende com as várias possibilidades que aquela experiência pode criar e seguir. Ao que parece é um filme com pouco orçamento, então não espere coisas incríveis que encantam os olhos. O cenário é o mais simples possível, um fundo completamente escuro, algumas luzes no teto e no chão para dar sentido ao que o filme se propõe e nada mais. Não existem atuações memoráveis aqui, mas todos os atores são eficientes e entregam o bastante para nos fazer se importar com seus personagens. Como a situação do filme exige uma morte a cada dois minutos, então tem uma grande variedade de “protagonistas”. A fotografia é um pouco escura – muito provavelmente por conta do pouco orçamento -, mas não atrapalha a experiência do filme. Contudo, o destaque de Circle não está no cenário, direção ou nas atuações, seu principal mérito é a proposta criativa do roteiro de discutir pautas políticas e sociais a partir de uma premissa simples.

É interessante pensar que quando os personagens se percebem naquela situação, eles encontram rapidamente uma maneira mais “democrática” de resolver seus problemas. A pergunta que o filme desenvolve constantemente e o que vai ser estabelecido como critério para manter e selecionar os “sobreviventes”. Qual critério vai ser estabelecido para matar quem “merece”. O filme estabelece inúmeras críticas a sociedade estadunidense em relação aos seus preconceitos éticos, políticos e sociais. Os personagens são bem estereotipados, mas acho que é necessário, já que existe uma constante eliminação dos mesmos. Essa constante eliminação de certo modo nos ajuda a se importa ou a odiar os personagens mais facilmente. É relevante observar que todos os “antagonistas” – todos mesmo - do filme, ou seja, os personagens que defendem de alguma forma a eliminação das minorias - étnicas, raciais, etc. - dentro do jogo são brancos, héteros, cisgêneros e ricos. São esses personagens responsáveis por argumentações como, por exemplo, que a eliminação das pessoas negras e latinas é de alguma forma justa por serem mais “privilegiados” e “tirarem os empregos dos americanos”. É um desses mesmos personagens que tem a ideia de estabelecer como critério a “contribuição social” de casa um ali para permanecer vivo. Não é uma surpresa descobrir em seguida que ele é um banqueiro, cujo olhar para realidade se dá apenas por uma defesa da lógica capitalista e meritocracia. O sistema de votação é idêntico ao que utilizamos, todos votam anonimamente, e se você se abstém, ou seja, decide não votar, você apenas não é considerado na contagem de todos os votos. Quando a um empate, todos os outros têm que votar novamente (como um segundo turno).

Um segundo critério proposto por outro personagem é decidir, a partir de valores morais e éticos - é importante reforça que são valores de uma sociedade conservadora - quem vive por meio de uma divisão rasa de quem é "bom" e quem é "mau". O acerto do filme é que ele mesmo problematiza e esclarece que essa divisão não existe na realidade, mas que as coisas são bem mais complexas. Um bom exemplo dessa relação é quando um personagem, o policial, fala que uma das pessoas ali no jogo tinha agredido a namorada e quase a matado. Isso provoca uma raiva em todos que decidem por sua eliminação. Entretanto, o mesmo policial que defende a mulher é o mesmo que diz que se deve acabar com a “bobagem socialista” e que dar apoio às minorias étnicas é apenas uma forma de estabelecer “privilégios” para elas. Essa questão da mulher também é levantada quando outro personagem tenta desestabilizar a "moral" de outra personagem perante os outros à acusando de ser uma atriz pornô, como se isso fosse naturalmente errado e motivo suficiente para sua eliminação. É importante pensar que essa questão é moralmente errada para a mulher, nunca para o homem. A pauta da sexualidade também é levantada quando nos deparamos com uma personagem lésbica. É interessante refletir que mesmo com todas as suas contribuições sociais, sua morte é justificada por outro personagem pelo simples fato dela ser LGBTQI+, por não seguir os “valores familiares” que o país estabelece – isso dito pelo próprio personagem. Com esse constante desenvolvimento o filme acaba por atingir também nossos valores particulares e nos conduzindo a conflitos internos que de alguma forma nos fazem tomar partido por determinados personagens. Se você é considerado uma minoria, logo se identifica com o preconceito vomitado em casa diálogo do filme entre os personagens conservadores.

Circle é um filme que vale a pena, pois possibilita reflexões sobre as opressões com as minorias sociais e mostra que elas são pessoas como quaisquer outras e que discursos de ódio são completamente infundados para justificar mortes e opressões. Apesar de uma reviravolta criativa no final, os últimos minutos de filmes não vão agradar todo mundo, em parte porque o filme segue um caminho tortuoso e confuso sem uma verdadeira necessidade.

- Pedro Silva

Circle (2015)

EUA

Duração: 86 min.

Direção: Aaron Hann, Mario Miscione

Roteiro: Aaron Hann, Mario Miscione

Elenco: Julie Benz, Mercy Malick, Carter Jenkins, Molly Jackson, Michael Nardelli, Sara Sanderson, Kevin Sheridan, Cesar Garcia, Lisa Pelikan, Zachary James, Lawrence Kao

 
 
 

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