Corra!: Nunca vá à casa dos pais de uma mulher branca!
- +Q90m
- 29 de fev. de 2020
- 6 min de leitura
Dirigido por Jordan Peele, Corra! é uma produção que tende quem assiste intrigado. Com um roteiro bem construído – vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original em 2018 - levanta discussões sobre o racismo e a atualidade histórica da escravidão e eugenia

O filme apresenta o casal interracial , Chris (Daniel Kaluuya) um rapaz afro descendente e Rose (Allison Williams) uma moça americana branca cuja família é de classe media alta. Rose convida o namorado para passar o fim de semana na casa de sua família cujo objetivo é apresentá-lo à seus pais. De acordo com que os eventos acontecem, Chris vai percebendo que existe algo muito errado com a família de Rose e que na verdade a sua chegada aguarda algo muito maior e assustador.
O cineasta Jordan Peele, em sua estreia no gênero de suspense, conseguiu surpreender a todos com Corra! O roteiro – também assinado por ele -, direção, elenco, tudo no filme é harmonizado e construído de forma magnifica deixando quem assiste deslumbrado com tudo o que o filme se propõe a apresentar. O enredo se desenvolve em um ritmo bom, construindo brilhantemente a tensão em cima do mistério sobre a família que quando revelado deixa qualquer um de queixo caído. Apesar de um tanto surreal, as explicações para tudo são completamente justificáveis por toda da profundidade de discussão social que o roteiro manifesta. Seus personagens são todos - todos mesmo - bem construídos e logo conseguimos se identificar com Chris. E falando nos personagens.. que atuações. Daniel Kaluuya consegue desenvolver o protagonista em tudo que o roteiro exige, entregando todos os conflitos internos exigidos pelo seu personagem. Alegria, tristeza, medo, raiva... enfim, não é surpresa Kaluuya ter sido indicado ao Oscar de Melhor Ator. Alisson Williams também desenvolve uma boa Rose e entrega todas as camadas que sua personagem exige nos surpreendendo bastante com a reviravolta. Lil Rel Horewy é competente e um ótimo alívio cômico, já que seu personagem é o responsável por boa parte de nossas risadas. Bradley Whitford e Catherine Keener também desenvolvem atuações firmes aos seus personagens. A narrativa do filme também ajuda bastante na construção da tensão que vai desencadear o último ato, esse que por sua vez reserva toda a violência gráfica do filme.
Contém Spoiler
Os Brancos e o seu “não racismo”
Corra! Estabelece uma discussão em cima do racismo e da questão eugênica – tanto racial como social - que apesar de ser atualmente combatido ainda não foi superado na totalidade. Esse racismo institucionalizado mostrado nas relações sociais apresentadas no filme nos evidencia como o racismo sofreu mudanças históricas, que foram internalizadas por relações sócio-culturais pelos indivíduos durante o tempo, de modo a revelar como o preconceito étnico está presente cruamente na atualidade, mas sem ser propriamente dito. Já no início do filme, na cena onde Chris e Rose conversam sobre a viagem, notamos o receio do protagonista em aceitar o convite de ir à casa dos pais de Rose. Relacionamos isso ao medo em ser rejeitado pelo grupo social no qual ele é excluído por causa da sua cor de pele. Esse preconceito é exemplificado na cena do atropelamento do servo. Enquanto Rose e o policial conversam, Chris retorna ao carro após verificar o corpo do animal. O policial, ao notar que Chris é negro associa o atropelamento do animal a ele sem antes questionar quem estava dirigindo. Rose, na sequência já defende Chris afirmando que ela atropelou o animal e não Chris. Notamos uma maior aceitação do policial ao ser confrontado por Rose. Entretanto, caso o contrário tivesse ocorrido, o efeito não seria o mesmo, pois o preconceito racial afeta o julgamento das pessoas.
A chegada do casal a casa dos Armitage revela todo o trabalho e a preocupação na aproximação e inserção de Chris pelos pais de Rose, de modo a não deixá-lo desconfortável. Vemos a constante preocupação de causar boa impressão através da linguagem e de posicionamentos políticos e sociais para que Chris se sinta acolhido e não inferiorizado. O Sr Armitage apresenta a casa para Chris, mostrando objetos de diversas culturas e discursos em favor dos negros. É de se perceber até mesmo um tom de ódio internalizado a pessoas racistas. Entretanto, é interessante ver como o roteiro trabalha esse discurso contraditório da família Armitage, pois Chris, ao chegar à casa, atenta para o fato de que apenas negros trabalham na casa. Dean Armitage (Bradley Whitford), o pai de Rose argumenta que não existe uma relação de exploração ou preconceito ali e sim familiar, pois ele argumenta que a empregada e o caseiro foram contratados para cuidar dos pais dele e que após o falecimento dos mesmos o afeto pelos indivíduos foi o impedimento da demissão.
Na cena do chá, percebemos que existe um processo de "limpeza" de Chris por meio dos questionamentos de Missy Armitage (Catherine Keener) sobre seu vício em cigarros, costumes e a família de Chris. Podemos associar essa “limpeza” ao Eugenismo e os processos de branqueamento recorrentes no século XIX, onde procedimentos e teorias de melhoramento da raça se desenvolviam rapidamente por meio das teorias Sociais Darwinistas. Essas teorias sustentavam e defendiam uma higienização e branqueamento do negro tirando seus vícios, doenças, comportamento e estilo de vida que, para esses teóricos, seriam impedimentos evolutivos. Isso é explicitado com quando Andrew Hayworth (Lakeith Stanfield) - personagem sequestrado no começo do filme – chega acompanhado de uma das amigas da família dos Armitage. Chris, ao encontrar Andrew fica até mesmo mais aliviado por ter alguém com quem se familiarizar, mas logo percebe que o mesmo não está no estado normal. Andrew agora se comporta um tanto mecanicamente, com uma linguagem e vestimenta mais formais, e até mesmo com uma forma diferente de agir que não corresponde com a comunicação e comportamento esperados por Chris.

Na cena do jantar onde o irmão de Rose, Jeremy (Caleb Landry Jones) questiona Chris sobre esportes, notamos o estereótipo do físico e da força do negro, como se eles possuíssem mais força para esportes que exigem maiores esforços físicos. Podemos associar esse rótulo com o período escravocrata em que os negros eram comercializados para trabalho braçal porque seus comerciantes e compradores viam melhores condições físicas para atividades que os brancos dispensavam. A relação de classe também é mencionada nessa cena quando, Jeremy diz que esportes como judô, jiu jitsu e etc. não são para pessoas como Chris, e que provavelmente ele só teria tido a oportunidade de lutar em "gangues de rua" ou vendo esses esportes pela TV. Quando os amigos dos Armitage chegam a casa, Rose apresenta Chris a todos os casais, que de alguma forma o avaliam seja por sua estrutura corporal, força, saúde, dentes e aparência no geral. Como na cena onde uma mulher pergunta a Rose sobre os dotes sexuais de Chris, criticando a sexualização do corpo negro, ou quando um casal de idosos faz um comentário sobre o negro está na moda. Esse momento é bastante simbólico, pois faz referencias aos leilões onde os senhores de escravos apresentavam os escravizados como mercadoria para a venda. Os brancos (os hospedeiros) escolhem o corpo que desejam comprar a partir de alguma característica que os interessa. Chris é escolhido por seus dons com a fotografia e mais uma vez por questões físicas, sua visão pois, o hospedeiro (comprador) sofre de deficiência visual. A discussão do biopoder - poder em relação ao corpo/vida - também é apresentada com essa analogia do negro que agora significa um estilo de vida, um corpo que irá proporcionar status cuja relação de poder é impulsionada pelo capitalismo. Outro ponto abordado pelo filme é uma nova perspectiva do que seria a escravidão do século XXI. Os Armitage nada mais são do que uma nova versão do século XXI de uma família escravocrata que vivem da venda desses corpos negros que serão usados em uma nova perspectiva de escravidão, uma apropriação completa do corpo e da mente dos corpos negros. Um processo eugênico de melhoramento desse grupo, a união do intelecto branco e as características físicas do negro.
Corra! transmite ao telespectador a discussão sobre a opressão do povo negro em vários níveis sem ser expositivo ou apelativo. Nos deixa livres sobre essas questões sem impor isso explicitamente, incentivando ao público uma constante auto indagação sobre suas opiniões em relação ao racismo institucional que ainda não foi superado mesmo após o fim da escravidão e das teorias eugênicas do século XIX.
- Emily Fernandes e Pedro Silva
*Esse texto foi escrito para avaliação da disciplina "Filosofia, antropologia, sociologia e relações étnicas " do curso de psicologia da Faculdade Plus.
Corra! (Get Out)
ANO:2017
PAÍS:EUA
DURAÇÃO: 1h44 min
DIREÇÃO: Jordan Peele
ROTEIRO: Jordan Peele
ELENCO: Daniel Kaluuya, Bradley Whitford, Allison Williams, Caleb Landry Jones, Lyle Brocato
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