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Hush: A Morte Ouve

  • Foto do escritor: +Q90m
    +Q90m
  • 7 de nov. de 2020
  • 4 min de leitura

É extremante gratificante ver que aqui, o dilema entre "vantagem e limitação" é, a cada segundo, ricamente subvertido.

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A escritora Maddie Toung (Kate Siegel) vive uma vida isolada desde o dia em que perdeu sua audição quando tinha 13 anos. Depois de se despedir de uma amiga, a escritora recebe a visita de um sádico e psicótico mascarado. Maddie precisa ir além dos seus limites físicos e mentais para conseguir sobreviver.


Hush: A Morte Ouve é um thriller de terror pouco conhecido e, com certeza, bastante subestimado. É uma produção da BLUMHOUSE e não é surpresa a produtora nos entregar um filme tenso do começo ao fim, com bons personagens e um ótimo roteiro. Como se não bastasse, o filme traz características fundamentais que interligue a obra ao mundo surdo. Uma das grandes vantagens de filmes de terror e suspense com poucos personagens é que o roteiro pode desenvolvê-los melhor. Quando temos muitos personagens, não costumamos dar atenção a nenhum deles e quase nada sentimos quando morrem ou pelo menos torce por sua sobrevivência. Poucos filmes conseguem fugir dessa lógica. Com poucos personagens isso é bem diferente já que conseguimos direcionar melhor nossa atenção e o roteiro/direção tem mais possibilidade de fazer nossos representantes no enredo. Outro fator que nos coloca sempre em alerta é acompanhar um personagem que tem alguma “limitação”. Isso nos deixa ainda mais apreensivos com o que pode acontecer e como a/o protagonista pode se safar e lutar com alguém com mais “vantagem”. E é extremamente gratificante ver que em Hush, esse dilema é levado em consideração pelo roteiro. Neste longa, a cada segundo essa lógica (de "limitação e vantagem") é subvertida.

Logo no início também o filme busca abordar diversas características da comunidade surda, o que é bastante interessante como, por exemplo, a questão da comunicação através da Língua de Sinais com sua amiga e vizinha Sarah (Samantha Sloyan), a capacidade da escritora de fazer leitura labial, o alarme de incêndio adaptado para surdos, entre outras características.

O roteiro (de Mike Flanagan e Kate Siegel, casados) e direção de Flanagan, logo nos minutos iniciais nos mostram como é a sensação de não poder escutar. É interessante como a mixagem de som faz isso de modo a sentirmos falta do sentido e se colocar rapidamente no lugar da protagonista. Além disso, apresenta de maneira bastante violenta o vilão e como ele descobre/percebe a surdez de Maddie. O filme mostra como ele (personagem não tem nome) vê em Meddie, uma mulher (e aqui podemos pensar o que comumente se pensa de uma mulher, desde sua suposta fragilidade e fraqueza), que vive sozinha, sem ninguém para “protegê-la” e que ainda não tem a possibilidade de escutá-lo. O roteiro se usa desses nossos preconceitos para, em um primeiro momento, mostrar as vantagens dele, e as desvantagens dela. Com isso, o assassino começa a usar dessas “vantagens” para, por exemplo, entrar sorrateiramente na casa, roubar o telefone de Maddie, tirar algumas fotos dela e etc.

Mas conforme o enredo se desenrola, o filme vai modificando essa concepção mostrando Maddie como uma verdadeira sobrevivente. E aqui temos que falar um pouco sobre a personagem e a atuação impecável de Kate Siegel. A atriz da um show em sua atuação e entrega à Maddie. Conseguimos absorver e imaginar tudo o que sua personagem está sentindo. As cenas onde Maddie é ferida por algum motivo são, para mim, sensacionais. Você simplesmente sente a dor e a agonia mesmo não escutando absolutamente nada. Apesar de, obviamente, em alguns momentos, ser uma pessoa surda, prejudica a personagem de pedir ajuda como, por exemplo, quando o namorado de sua amiga Sarah, vai a casa de Maddie e ela não consegue pedir socorro. Por outro lado, sua personagem se mostra uma mulher extremamente inteligente e forte, que busca a todo o momento se manter viva. O roteiro não cria situações artificiais para mover a história, todas as situações são verossímeis – na medida do possível – de alguma forma com a realidade e os princípios dos personagens. É nesse movimento de subversão que Maddie deixa de ser uma mulher (pensando os estereótipos comentados acima) e surda, para ser uma mulher extremamente esperta que transforma sua surdez em uma vantagem perante seu inimigo. Percebemos isso em vários momentos, quando ela se usa do tato para sentir vibrações, ou como possibilidade para criar sons extremamente altos para desestabilizar seu agressor.

Outro ponto muito importante na construção da personagem, a nosso ver, é o fato dela ser escritora. Quando Maddie é indagada por sua amiga se ela tem “uma voz” ela responde que possui uma voz adulta nos seus pensamentos que se assemelha a de sua mãe e, em vários momentos no filme, a personagem conversa consigo mesma sobre maneiras de escapar do assassino. Além de ser uma questão pessoal, entendemos que é essa voz que lhe fez uma escritora.

Em suma, Hush traz um desenrolar rico onde percebemos a evolução psicológica da personagem para tentar sobreviver e escapar da morte através das suas sensações, experiências, capacidades e diferenças utilizando tudo isso ao seu benefício. Mostrando como ainda carregamos preconceitos em volto do que ainda consideramos "limitações" e de como isso simplesmente não se sustenta.

- Nágela Rodrigues e Pedro Silva

*Parte deste texto foi escrito para avaliação da disciplina “Língua Brasileira de Sinais – Libras” ofertada para o curso de História da Universidade Federal do Ceará – UFC.


Hush: A Morte Ouve (Hush)

ANO:2016

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 1h27 min

CLASSIFICAÇÃO: 16 Anos

DIREÇÃO: Mike Flanagan

GÊNERO: Suspense, Terror

ROTEIRO: Mike Flanagan, Kate Siegel


 
 
 

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