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Coringa: Herói ou Vilão?

  • Foto do escritor: +Q90m
    +Q90m
  • 27 de jan. de 2020
  • 6 min de leitura

Atualizado: 10 de jun. de 2020

Assim que a sessão do filme terminou, escutei alguns comentários de pessoas dizendo a seguinte afirmação “O Coringa é um anti-herói...” e comentários na internet sobre o filme ser perigoso ou tóxico, se levarem em conta a seguinte afirmação, ele pode ser perigoso sim!


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A grande surpresa da Warner, quando surgiu a afirmação de que este filme iria realmente existir, muitos se perguntaram “Pra quê?”, e não é que o filme lançou e foi uma bomba (no bom sentido)! O filme retrata uma das centenas formas de origem do Coringa, no caso como o conhecemos inicialmente, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um homem que tem seu trabalho divulgando lojas usando letreiros, até que um bando de arruaceiros, roubam a placa de suas mãos e o conduz até um beco isolado e dão uma surra no indivíduo. Arthur tem uma doença que tem o seu riso frouxo, que faz com que ele ria em momentos que não seriam adequados, o filme retrata toda a trajetória de dificuldades e problemas de Arthur até o Coringa despertar.

É um filme de quadrinhos? Levando em consideração o personagem, universo e tudo o que é mostrado no filme? Sim, o filme deixa isso muito óbvio, só que o Todd Phillips, diretor e também co-roteirista, realiza esse feito de uma forma diferente dos filmes mais convencionais de heróis, aqui tudo é muito bem executado, cauteloso e mostrando mínimos detalhes que só percebemos assistindo-o várias vezes. A trilha sonora do filme casa muito bem com as cenas e conversa com o espectador, deixando-o aflito. Falando sobre o Coringa, o diretor, fez a transformação de uma forma mais convincente. A maquiagem, a loucura, a roupa, tudo ficou bem caracterizado e destacado no filme, como se realmente Arthur Fleck tivesse morrido e só existindo o Coringa. Para algumas pessoas é um filme difícil de se assistir por trazer uma carga emocional pesada, um plot twist e cenas duras de se assistir, mas é com certeza uma das melhores origens do Coringa, com uma incrível atuação, dando aquele gostinho de “Quero mais”. É o filme de quadrinhos mais premiado da Academia do Oscar, tendo 11 indicações.


CONTÉM SPOILER

"O que acontece quando você cruza um doente mental com uma sociedade que abandona ele"

Coringa trouxe - quando lançado -, uma discussão que merece a nossa atenção. Afinal, ele é ou não um vilão? A culpa é da sociedade? O que fez o coringa ser o que ele é? O filme também foi bombardeado por diversas críticas por uma espécie de amenização da loucura do personagem como se todas as suas atitudes enquanto vilão podiam ser justificadas por conta das desventuras da sua vida. Entretanto, essa discussão entre como a sociedade determina o individuo não é nova dentro das Ciências Humanas e nem de longe é simples. Acontece que o filme consegue desenvolver isso da forma como é na realidade. Uma relação dialética.

Phillips (diretor) mostra as dificuldades de Arthur, apresentando todos os problemas dele e o seu fracasso como comediante. Em suma, a vida do nosso protagonista nunca foi fácil. Mas e Gothan City? Existe um programa que passa todas as noites, "Murray Franklin Show", que é apresentado pelo próprio Murray (Robert De Niro), um Late Night que Arthur junto de sua mãe gostam de assistir todas as noites. Phillips retrata Gotham City como ela realmente é, uma cidade suja, sendo que em todos os TAKES da cidade, podemos observar entulhos de lixo por toda parte exceto aqueles que vemos ela por completa. A cidade, pelo que é expressado no filme, é um ambiente submerso em uma crise orgânica em que a violência, desigualdade, desemprego e a falta de infraestrutura predominam. O Estado também não ajuda, a narrativa deixa claro que não são os interesses da maioria que importam, mas sim os dos ricos e afortunados. Não é atoa que as pessoas ficam ao lado do assassino dos três jovens empregados do Wayne. Elas estão cansadas de todo o desprezo e de como são tratadas cotidianamente. Falando nos Wayne, a cena onde o pai do futuro homem morcego dá uma entrevista a TV sobre o assassinato dos seus funcionários é uma crítica dura a ideia da Meritocracia. Thomas Wayne (Brett Cullen) é um homem que fala pela sua classe, que acredita fielmente que o sucesso de um individuo depende apenas do seu esforço individual, e quem não se esforça o bastante não merece respeito. Logo, se temos uma sociedade meritocrática, seguimos com sua irmã siamesa, o individualismo, tão presente nas sociedades de classes. São essas duas ideologias criticadas ao final do filme que justificam a invisibilidade de pessoas pobres como Arthur.

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"Nós que conseguimos sucesso na vida, olhamos para quem não consegue e vemos apenas palhaços."

A subjetividade do protagonista não é esquecida, muito pelo contrario. Arthur é um homem com diversos problemas, mas que carrega certa inocência no seu próprio olhar da realidade. Por conta da sua doença do riso frouxo podemos subentender que isso foi afastando as pessoas dele. Isso é mostrado na cena do ônibus quando a mulher tira seu filho de perto de Arthur. O diálogo dele com a assistente social também deixa em aberto nossa imaginação para pensar em todos os níveis de problemas psicológicos que Arthur enfrenta. É importante se atentar a esse detalhe, Arthur nem mesmo é acompanhado por um psicólogo, mas por um profissional que não está totalmente adequado a lidar com pessoas como Arthur.

Dito isso, o que o filme constrói desde o início é uma série de desventuras que agravaram os problemas de Arthur Fleck cujo desenvolvimento desencadeia na formação do Coringa. A perda do emprego e do acompanhamento com a assistente social e seus medicamentos - essa que foi cortada por falta e verbas da prefeitura; a desilusão com a mentira de sua mãe... em suma, foram acontecimentos, de certa forma sociais, que afetaram a já fragilizada subjetividade do nosso protagonista no longa.

A nosso ver o que o filme tenta apresentar não é uma forma de justificar as atitudes ruins de seu protagonista e nem mesmo tirar dele a culpa por suas atitudes. O que tem de ser visto aqui é essa relação inseparável entre indivíduo e sociedade. Arthur no início é um homem infeliz e depressivo que aos poucos foi perdendo as esperanças, sendo empurrado cada vez mais para o submundo das suas próprias inseguranças. Um homem que nunca foi visto como importante para a sociedade na qual ele vive. Em contrapartida, a criação do seu personagem, um homem confiante, decidido e que ri da sua própria desgraça é uma resposta sádica a sociedade que nunca lhe viu. Isso não tira dele a culpa por suas atitudes violentas, apenas revela o papel da objetidade da realidade na vida de alguém. Atitudes essas que poderiam ter sido evitadas em uma sociedade menos desigual e mais humanizada.


Coringa é um revolucionário?

Afinal, o que o Coringa é? Esse foi outro ponto bastante discutido, pois para alguns, esse filme quer trazer a visão de um Coringa que manifestou a vontade entre as classes subalternas a se rebelar diante de um governo que nunca se preocupou com eles. Arthur não matou os funcionários do Wayne no metro por motivos políticos, e nem mesmo queria ser reconhecido como um líder. O próprio personagem diz em alguns momentos não acreditar em movimentos políticos e que nem mesmo defende nada. Entretanto, sua decisão de matar aqueles homens acabou desencadeando uma onda de revoltas pela cidade. Mais uma vez vemos a relação sujeito e sociedade. Dessa vez, as decisões de um individuo se desdobraram em um "período de consequências" que saiu do seu controle tomando sua própria forma na realidade. Coringa até mesmo expõe seus pensamentos ao dizer que as elites não podem fazer tudo, pois vai chegar um momento em que os grupos marginalizados não vão seguir aceitando tudo sem resposta. O filme conduz então para uma Gotham City em um estado anárquico de desordem e rebeliões. Desse modo, o personagem não deve ser visto como um revolucionário das classes subalternas, mas um estopim que abriu novas possibilidades - mesmo sem a intenção - de enfrentamento das elites.


Coringa é um filme profundo, que incomoda por seus vários níveis de discussões, tanto no âmbito psico-sociais como político. Não é um filme fácil de se ver, justamente por seu aprofundamento na mente de um dos vilões mais icônicos da cultura pop. Não deve ser visto como um filme que se propõe a justificar as atitudes dele, mas a desenvolver essa relação ineliminável do sujeito com a sociedade e vice versa.

- Breno Muniz e Pedro Silva


Coringa (Joker)

Ano: 2019

País: EUA

Classificação: 16 anos

Duração: 122 min

Direção: Todd Phillips

Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Bil Camp, Frances Conroy, Brett Cullen

 
 
 

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