top of page

Laranja Mecânica: Seu corpo vai aprender a odiar a violência

  • Foto do escritor: +Q90m
    +Q90m
  • 8 de ago. de 2020
  • 6 min de leitura

Lançado em 1971 e dirigido por ninguém menos que Stanley Kubrick, Laranja Mecânica carrega uma coleção de adjetivos: “Brilhante”, “Violento”, “Bombástico”, “Dançante”, “Assustador”, “Arrebatador”.

ree

Alex (Malcom McDowell) faz parte de um grupo de delinquentes cujo maior divertimento é aproveitar as longas noites para cometer delitos e causar o sofrimento alheio. Ao ser preso por crime de assassinado, Alex tem a possibilidade de diminuir sua pena caso concorde em passar por uma técnica que promete curar as tendências à violência de qualquer sujeito. Contudo, a técnica tem efeitos colaterais que ameaçam a liberdade do jovem de outras maneiras.


O longa é uma adaptação do livro de mesmo nome de Anthony Burcess, e publicado originalmente no inicio dos anos 1960. Bem, digamos que o filme traz um pouco de tudo. Apesar de ser datado, Laranja Mecânica consegue desenvolver discussões ainda muito presentes na nossa sociedade atual. Não foi atoa que o filme teve quatro indicações ao Oscar nas categorias de, Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Direção e Melhor Edição.

Kubrick tem um talento inegável quando o assunto é o visual e o sonoro de forma a intercala ambas as partes do filme com perfeição. Visualmente e graficamente o filme é bonito, mas igualmente repulsivo em sua violência, que nos anos 1970 ultrapassava todos os limites do aceitável - o longa até mesmo foi proibido de ser exibido em algumas cidades da Inglaterra. Mesmo depois de quase 50 anos do seu lançamento original Laranja Mecânica é extremamente incomodo, principalmente por suas cenas de nudez explícitas e estupros executados de forma bastante verídica¹. A trilha sonora, além de um entrosamento espetacular com as cenas, revela um reflexo do próprio protagonista do enredo de forma a aproximá-lo do espectador e de quebra revela um pouco do psicológico doentio de Alex. Podemos dizer que o livro está incrivelmente bem adaptado referente a direção de arte que conseguiu criar o ambiente futurista descrito por Burcess, mas que ao mesmo tempo soube dar características próprias ao filme sem seguir para um absurdo se afastando da obra. Em suma, Stanley Kubreck consegue dar o tom de estranheza e repulsa que Burcess transmite em sua escrita.

No livro temos uma narração em primeira pessoa. Adaptações de livros onde o próprio personagem conta sua história tem certa dificuldade em aproximar o personagem do público, pois é mais complicado estabelecer essa conexão tão presente na leitura entre personagem e leitor, já que com com a leitura temos acesso constantemente aos pensamentos, angustias e crises do protagonista. Logo, outro acerto, a meu ver, em relação ao filme é manter a narração de Alex. Isso nos aproxima de seus pensamentos, dúvidas e a medos em meio as mudanças que sua vida toma.

Quanto as atuações, todos os atores se apropriaram de seus personagens com dedicação. Malcolm McDowell dá vida ao Alex de forma brilhante. Não só em suas ações, mas até mesmo em pequenos detalhes como a forma de andar, olhar ou falar. O cinismo do protagonista tão frequente no livro é passado com maestria por McDowell. O uso do dialeto Nadsat² pelos atores é exemplar tamanha naturalidade na troca das palavras. Patrick Magee (O escritor que ajuda Alex) também se destaca bastante principalmente no terceiro ato com a mesma loucura narrada por Alex no livro. Os demais atores, apesar de não requererem muito foco, conseguem estabelecer essa aproximação com o livro pelo brilhantismo da direção e roteiro adaptado de Kubrick.

ree

Violência Gera Violência - O Controle do Estado e a Liberdade

É importante ressaltar que a sociedade em Laranja Mecânica é apresentada como extremamente violenta, sem ordem e leis (pelo menos na prática), constantemente ameaçada por grupos de arruaceiros e criminosos. No segundo ato, durante a estadia de Alex na prisão somos apresentados a "Técnica Ludovico" que promete bloquear qualquer tendência agressiva de criminosos. A técnica foi o meio/aposta encontrado pelo Estado para resolver a brutalidade nas ruas e a superlotação nos presídios da cidade que mais serviam como forma de "concentração da criminalidade" sem uma verdadeira eficácia no combate aos crimes. Assim, com a nova técnica seria possível tratar os criminosos “menores” e direcionar presos políticos para as prisões tendo assim menos gastos com o encarceramento.

Durante os anos iniciais do século XX a ciência tomava completamente o lugar da Igreja enquanto instituição para legitimar discursos e ideias. Foi assim com o Darwinismo Social, a construção da homossexualidade como doença e etc. Dentro dessa relação, o que vemos no filme é a ciência se usar de caminhos e justificativas biológicos para resolver problemas sociopolíticos. Com isso, o Estado em Laranja Mecânica se usa dessa legitimação total da ciência para validar suas experiências sem discutir as consequências de tais ideias e práticas. Uma técnica mecanizada cujo objetivo é “transformar o mau em bom”, tornando o corpo humano uma máquina de repulsa natural à agressividade. Fabricando uma criatura que não pratica ou nem mesmo presencia um ato de violência. É bom frisar isso, não é o indivíduo que tem repulsa aos atos de violência, mas sim o seu corpo que, em qualquer contato com essas ações de agressividade apresenta literalmente sintomas como dores e ânsia de vômito. Em suma, a Técnica Ludovico transforma algo orgânico e de livre decisões em uma máquina com automações pré-determinadas - Daí o nome que dá título ao filme.

ree

"Violência é uma coisa horrível. Seu corpo vai aprender a odiar violência"


Quando Alex é exposto ao procedimento e liberto, várias problemáticas começam a surgir. A primeira é que a Técnica Ludovico, por seguir um caminho biologizante, onde o corpo físico é o alvo do tratamento e não a formação psico-subjetiva do sujeito, como já citado, tira de Alex mais do que sua vontade de cometer delitos. Por conta dessa abordagem, o efeito colateral do tratamento faz com que Alex sinta repulsa por qualquer coisa que lhe gere reações sentimentais fortes. Alegria, Raiva, Desejo... Todos esses sentimentos têm a mesma resposta do seu corpo, a de repulsa/nojo. Dessa forma, a técnica lhe tirou a capacidade de sentir qualquer emoção. A segunda problemática é que Alex também deixa de ter a capacidade de decisões morais, já que a decisão deixa de ser dele e passa à ser uma resposta automática do seu corpo. Assim podemos perceber que o ambiente futurista proposto por Burcess e adaptado por Kubrick se remete à uma sociedade regida por um Estado ditatorial que busca, por meio de uma legitimação científica, anular pouco a pouco as liberdades individuais de seus cidadãos, já que liberdade é, em última instancia, a possibilidade de tomar decisões.

A meu ver, o primeiro ato do filme, onde temos a apresentação dos personagens e a ambientação, toma uma importância muito maior quando Alex tem que enfrentar tudo novamente. Apesar de o personagem está livre da prisão, no último ato ele tem de encarar tudo novamente só que agora sem a sua liberdade subjetiva. Essa falta de escolhas é o que leva Alex a tomar medidas extremas contra si mesmo. Infelizmente o filme de Kubrick tem um final bastante fatalista – o do livro é diferente -, mas que talvez se justifique como forma de manter o horror de um futuro tão assustador quanto aquele.

Laranja Mecânica é uma obra prima, reflexo de como os anos 1970 pensavam o futuro de uma sociedade moderna beirando ao caos. Um real clássico da cultura pop e progenitor de filmes que se propõe a apresentar utopias assustadoras dos caminhos possíveis de nossa sociedade atual. Em 1971, Kubrick já estava anos a frente das várias outras produções utópicas.

- Pedro Silva


Notas

1 - Com toda a discussão que temos hoje sobre as mulheres no cinema, Laranja Mecânica talvez fosse rechaçado com força se produzido atualmente.

2 - Anthony Burcess era um grande estudioso da linguagem, ele tinha direcionado grande atenção pela forma como os jovens trocavam suas próprias gírias e neologismos. Ao criar Laranja Mecânica, o autor criou um dialeto próprio para seus personagens (uma mistura de palavras em inglês e russo) como forma de demonstrar as particularidades da juventude moderna e entregar uma experiência maior de estranhamento perante sua obra.


Laranja Mecânica (A Clockwork Orange)

País: Reino Unido/EUA

Ano: 1971

Duração: 136 minutos

Classificação: 18 anos

Direção: Stanley Kubrick

Roteiro: Stanley Kubrick (baseado em romance de Anthony Burgess)

Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, John Clive, Adrienne Corri, Carl Duering, Paul Farrell, Clive Francis, Michael Gover, Miriam Karlin, James Marcus, Aubrey Morris, Godfrey Quigley, Sheila Raynor


 
 
 

Comentários


Post: Blog2_Post

Subscribe Form

Thanks for submitting!

©2020 por Meu Site. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn
bottom of page