Moonlight: Sob a Luz do Luar
- +Q90m
- 13 de jun. de 2020
- 6 min de leitura
A estrada em busca da autoestima enquanto homem negro LGBT

Moonlight conta a história de Chiron, um garoto negro da periferia de Miami. O filme segue sua vida em três momentos - desde o pequeno Chiron (little) até Chiron adulto (black) -, expondo sua busca por uma identidade e compreensão da própria sexualidade.
Moonlitght é antes de tudo, um filme sensível e belo. Tudo aqui harmoniza com perfeição para contar uma história sobre o homem negro, bem diferente do que estamos acostumados. É o primeiro filme com temática LGBT e elenco composto por negros a ganhar o prêmio de melhor filme no Oscar. James Laxton, diretor de fotografia, faz um trabalho impecável. Não é surpresa nenhuma o longa ter sido indicado a melhor fotografia e melhor montagem, ambas conseguem transmitir a sensibilidade do protagonista de forma a nos aproximar do que ele sente. É possível identificar várias técnicas de filmagem e com cada uma se mostra ideal para os momentos que se seguem. Outra coisa a ser destacada é a sua força como filme visual, tendo poucos diálogos. Talvez quem goste de filme com muita conversa não vá curtir muito, contudo o roteiro e direção de Barry Jenkins sabe suprir todas as emoções e experiências que devem ser passadas sem a necessidade de exposições verbais.
É claro que ausência de diálogos também é compensada pelas incríveis atuações. Mahershala Ali – vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante por esse papel – traz Juan, um homem sensível, mas ao mesmo tempo firme. Janelle Monáe está encantadora com Teresa. Naomie Harris, a mãe de Charon entrega uma excelente atuação. Apesar de sua personagem não ter um grande foco na narrativa, a atriz consegue desenvolver, em seus poucos momentos, o suficiente para nos colocar em seu lugar enquanto mulher negra e mãe solo. Mas o que Ashton Sanders e Trevante Rhodes – Chiron na adolescência e adulto respectivamente – fazem é realmente incrível. Enquanto o primeiro tem a difícil tarefa de dar ao protagonista as bases de suas angustias e inseguranças, o segundo consegue carregar na mesma proporção o que foi construído por Sanders desenvolvendo de forma leal o adulto que se formou a partir de todas aquelas experiências e frustrações da adolescência. Nem por um segundo você questiona o motivo daquele homem forte ser extremamente frágil. O Chiron da adolescência não se perdeu.
CONTÉM SPOILER
Todo Negro é uma Estrela
1 - Pequeno
Logo no início somos apresentados a Juan (Mahershala Ali), um homem negro, forte e que aparenta ter muitos bens. Sua aparição, não por coincidência é exposta junto à música “Every Nigger is A Star” de Boris Gardiner, canção que debate a autoestima que um homem negro conquistou depois de anos andando nas ruas e sendo desprezado.
O filme já de cara quebra grande parte da expectativa de quem está assistindo. O que o telespectador espera é que Juan seja uma ameaça a Chiron (Alex Hibbert), e isso se dá pelas narrativas estereotipadas do homem negro que somos acostumados a ver. Contudo, o personagem toma atitudes de cuidado e proteção com o garoto. O que Moonlight quer tocar não é na violência cotidiana, pelo contrário, sua abordagem é sobre amor e orgulho - como mais tarde Teresa, a namorada de Juan, fala para Chiron.
O mar está sempre presente no filme. Quando é Little, Chiron procura Juan para acolhimento e ele leva o garoto à praia. Lá, Juan fala que “Os pretos estão em todo lugar” e que Chiron é parte do mundo. Juan reflete sobre existir um lugar onde todos são amados e que o homem negro brilha a luz do luar e por isso, todo negro é uma estrela. Naquele momento conseguimos sentir como o garoto tão invisível se conecta ao mundo e se sente bem.
Adiante, Chiron questiona sua sexualidade e Juan comenta: “Em algum momento você tem que decidir quem você quer ser, não pode deixar que ninguém decida por você”, trazendo o debate de identidade que ao longo de todo o filme o personagem enfrenta.
O filme não precisa de muito para construir como pano de fundo a realidade de mulheres negras que são mães solo. O fato de Paula (Naomie Harris), mãe de Chiron ser dependente química, torna a relação dos dois mais pesada e conflituosa. Ele a vê em situação de vulnerabilidade e agressividade repetidas vezes, provocando assim mais um conflito interno. Ao que parece, ela mesma tem certa dificuldade em aceitar a sexualidade do filho o que por consequência coloca o garoto em uma posição de maior isolamento social e subjetivo. A situação piora quando Little descobre que Juan, a representação masculina que ele tem, alguém que ele respeita, é o traficante do qual sua mãe compra drogas.
Dessa forma, o amor nesse primeiro momento é desenvolvido em torno de Juan, que desperta no pequeno Chiron carinho e admiração pela figura masculina/paterna que ele representa; o amor da mãe de Chiron que leva uma vida turbulenta com o filho; e o amor de Kevin, amigo de Chiron desde a infância.
2 - Chiron
No segundo ato do filme, temos novas problemáticas como o bullying e como Chiron (Ashton Sanders) lida com isso. Apesar de ser o ato mais curto dentre os três, esse é com certeza o mais importante para o desenvolvimento do personagem e nossa imersão em seus conflitos internos. A adolescência é o momento de formação de quem somos e o filme compõe com beleza as dificuldades e inseguranças do jovem e como elas são aprofundadas por meio de suas relações adversas. Com todas os ataques que enfrenta na escola, Chiron sempre recorre a Teresa (Janelle Monáe) - já que Juan faleceu. A personagem de forma indireta toma o papel de mãe que o garoto não tem da sua verdadeira progenitora. Durante maior parte do filme, Chiron está de cabeça baixa, com vergonha de si mesmo, reflexo de uma ausência, um exemplo, ou uma representatividade vivendo na periferia. Ainda existe o tabu do “ser gay” intensificado para um corpo preto, que por vezes é sexualizado.

"Levanta a cabeça. Aqui eu só quero amor e orgulho"
Em mais um momento de dúvida, Chiron busca a praia onde por acaso encontra Kevin (Jharrel Jerome) que acolhe o amigo. Eles tem um momento íntimo e Chiron pede desculpas - mesmo sem ter feito nada de errado - mais uma vez mostrando que não conquistou o amor próprio e o orgulho de que Teresa fala. Sabemos que essas são coisas que se custam a conquistar, ainda mais para ele que não teve um lar acolhedor e nem as representatividades como dito anteriormente. É na sua adolescência que os problemas com drogas de sua mãe afetam ainda mais a relação de ambos. O bullying na escola fica mais forte. Kevin acaba se tornando também vítima do machismo, e para tentar provar sua masculinidade acaba machucando Chiron. A reação de Chiron a isso o leva ao reformatório, consequência essa que mudaria sua vida - mas não tanto.
3 - Black
No terceiro e último ato conhecemos o Chiron adulto, Black (Trevante Rhodes), um grande traficante de Atlanta. Mesmo agora tendo um reino no mundo do crime, Chiron ainda se esconde e não sabe lidar com seus próprios fantasmas. Esses obstáculos e fragilidades que ele carrega consigo mesmo são revelados por uma simples ligação de Kevin (André Holland), paixão que Chiron não vê a 10 anos. Quando sua mãe - agora na reabilitação -, diz à Chiron que ele não precisa ser como ela, “ter um coração sóbrio”, o mesmo percebe como não tem sido ele mesmo durante anos, decidindo ir encontrar Kevin. Apesar de Chiron não ser mais o Little, a criança perdida e confusa em meio a realidade, ainda é o menino que tem vergonha de si mesmo.
Mais tarde, Chiron decide ir à casa de Kevin, onde mais uma vez encontramos o mar. Começam a conversar e Chiron afirma não está tentando ser outra pessoa, mas Kevin questiona e diz que até mesmo ele nunca foi quem queria ser. Logo depois Chiron declara o motivo de ter voltado e Kevin o abraça. Vemos então a redenção de Chiron para quem ele realmente é. Por fim surge uma cena de Chiron enquanto Little no mar, onde ele podia ser ele mesmo e ainda sim parte do mundo. É como se Chiron tivesse finalmente encontrando seu orgulho e amor próprio.
Moonlight é um filme sobre a sensibilidade humana que com uma narrativa leve, consegue trabalhar as mais diversas temáticas de forma tocante. A autoestima do protagonista foi uma construção, possibilitada por quem estava à sua volta, mas que seria favorecida se ele tivesse um bom lar e representatividade em sua vida.
- Thicyana Carvalho e Pedro Silva
Moonlight: Sob a luz do luar (Moonlight)
DIRETOR: Barry Jenkins
CLASSIFICAÇÃO: 16 anos
ANO: 2016
PAÍS: EUA
DURAÇÃO: 110 min
ELENCO: Trevante Rhodes, André Holland, Janelle Monáe, Ashton Sanders, Jharrel Jerome, Naome Harris, Mahershala Ali
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