O Diabo Veste Prada
- +Q90m
- 5 de set. de 2020
- 6 min de leitura
Atualizado: 17 de jun. de 2021
O Diabo Veste Prada é querido por muitas pessoas (principalmente por mim), e tanto sucesso não é atoa. O filme conta com uma ótima produção, roteiro e atuações lendárias de todo o elenco. Um verdadeiro clássico atemporal, como falaremos adiante.

Andy Sachs (Anne Hathaway) é uma recém-formada que por um golpe de sorte consegue um emprego em uma das mais renomadas revistas de moda, a Runway. Infelizmente, sua contratação foi justamente para ser assistente pessoal de uma das mulheres mais importantes e influentes do mundo editorial, Miranda Priestly (Meryl Streep). Com o tempo, Andy vai percebendo que o emprego dos sonhos pelo qual “um milhão de garotas morreriam para conseguir” na verdade é um verdadeiro pesadelo. Com seu diabo particular.
Lançado em 2006, O Diabo Veste Prada é um verdadeiro clássico da cultura pop e aqui no Brasil, pode se dizer, um clássico da "Sessão da Tarde". O filme é uma adaptação do livro homônimo de Lauren Weisberger. A autora foi assistente de Anna Wintour, lendária editora da Vogue americana. A experiência foi tão marcante na vida da escritora que Weisberger decidiu revelar um pouco do mundo conturbado das revistas de moda já em seu primeiro romance.
Quando a Fox comprou os direitos do livro de Weisberger para a adaptação eles talvez não tivessem ideia do acerto no investimento. O livro de Weisberger é bem escrito, divertido, engraçado e com personagens cativantes. Todos esses elementos são mantidos com maestria na adaptação cinematográfica, ao mesmo tempo que se dispõe a construir elementos próprios do filme. A adaptação para o cinema é atraente, engraçado, com ótimas sequências e cenas (quem já não se viu na correria de Andy por causa do trabalho??). Apensar do roteiro cortar muitas informações do livro (até porque o roteiro começou a ser trabalhado antes mesmo da finalização do livro) e ter um terceiro ato bem diferente, o filme com direção de David Frankel é completamente competente em seu produto final.
De toda forma, O Diabo Veste Prada não seria esse clássico pop se não fosse pelas atuações marcantes de Meryl Streep e Anne Hathaway. Streep incorporou Miranda com perfeição. É incrível que ela não tenha sido a primeira atriz cotada para viver a personagem. Sua performace como Miranda lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro. Sua atuação é simplesmente brilhante, fazendo de Miranda uma mulher poderosa, fria, mas que tem seus momentos de fragilidade. Aqui o roteiro tem certa vantagem em relação ao livro já que Miranda ganha uma certa humanidade, e isso é de extrema importância como falaremos a seguir. Anne Hathaway já estava ganhando seu espaço como protagonista em produções da Disney como O diário da Princesa (também clássico das tardes na globo), mas com certeza, foi com Andy em O Diabo Veste Prada que a atriz mostrou todo o seu potencial. Assim como Streep, a atriz incorpora sua personagem de forma genial e com uma harmonia maravilhosa junto a sua “antagonista”. Em vários momentos me identifiquei com seu personagem, lutando a todo custo em manter o emprego mesmo com uma pessoa imperiosa a tira colo.
Se já não bastasse, o elenco coadjuvante não fica atrás contando com performances de Emily Blunt e Stanley Tucci. Temos uma atuação cômica de Blunt como Emily - a outra assistente de Miranda que consegue dar suas contribuições ao inferno particular de Andy. E Tucci, como Nigel, que aparece pouquíssimas vezes no livro, mas aqui o personagem ganha maior atenção. Stanley Tucci desenvolve tão bem o personagem, que a meu ver, deu a Nigel uma maior participação no segundo livro de Lauren Weisberger. Sim, o livro tem uma continuação “A Vingança Veste Prada” de 2013, mas que até agora não foi pensado para uma nova adaptação - e considerando o tempo, acho que não vai rolar.
Trabalho e Saúde Mental
Bem, quando falei que o filme é atemporal não foi atoa. Esse longa, assim como a moda, está sempre se reinventado não importa a época em que você assista. Parece mais atual do que nunca quando pensamos nele a partir de uma discussão dos limites no trabalho e saúde mental. Sim, é isso mesmo. Tanto no filme, mas principalmente no livro, percebemos que esse trabalho de Andy, o emprego pelo qual "Um milhão de garotas morreriam" é excessivamente tóxico para sua vida. O principal debate do filme é: Até que ponto vale a pena sua dedicação à carreira rumo ao sucesso? Quando eu disse que Miranda no filme é mais humanizada é justamente para pensar até que ponto ser uma das mulheres mais importantes e poderosas do mundo da moda realmente lhe faz feliz. Está nessa posição pode trazer sucesso e poder, mas sua vida pessoal é marcada por divórcios, infelicidades com a família e falta de tempo com as filhas. Outra coisa clara é que, sua necessidade de manter um patamar de sucesso lhe destina pessoas falsas ao seu redor e que não gostam dela de forma genuína. A personagem também humilha e se coloca acima das outras pessoas para continuar no “poder”. Miranda pode ser poderosa e bem sucedida, mas não é inteiramente feliz ou nem mesmo uma boa pessoa.
O que vemos no decorrer do filme é exatamente essa transformação de Andy. Uma mulher com amigos, próxima da família e do namorado, mas que começa a sacrificar todas essas relações em detrimento da sua “carreira”. Infelizmente o roteiro corta bastante coisa da vida pessoal de Andy e por isso, talvez, não percebemos essa relação tão próxima que ela tem com seus familiares, amigos e namorado. No livro conhecemos mais da sua vida e sobre todos os seus conflitos e sacrifícios pessoais. Também acompanhamos seu constante adoecimento mental já que ela começa a ter crises de ansiedades constantes, cansado extremo, ou falta de tempo livre.
Então podemos pensar exatamente sobre os nossos limites. Quando Andy toma aquela decisão no final do filmes, sentimos finalmente a leveza quando o peso "Miranda" e "Carreira" saem das duas costas. Afinal, vale a pena deixar sua vida de lado por causa do trabalho? É mesmo saudável manter um trabalho que lhe suga ao máximo sem lhe dar possibilidades de manter uma vida social ou mesmo de fazer as coisas que você gosta?
Quem é o verdadeiro vilão?

Alguns anos depois de lançado, O Diabo Veste Prada gerou um intenso debate sobre quem era o verdadeiro vilão do filme, Miranda ou Nate, o namorado de Andy. Com um olhar feminista mais liberal, muitas mulheres argumentaram que Miranda era vista como vilã por ser uma mulher poderosa e de sucesso, que conquistou tudo sozinha, e que empoderava as outras mulheres ao seu redor. Nate, por outro lado, seria um cara ruim pois não apoiava Andy em seu crescimento profissional e se sentia ameaçado por seu constante sucesso.
Bem, eu concordo que o filme não tem exatamente um vilão ou vilã, mas não concordo com essa leitura de Nate. Como dito acima, Miranda realmente é uma mulher poderosa e forte, que conseguiu seu lugar ao sol em uma indústria tão machista, mas isso não justifica suas atitudes e ações com as pessoas. Miranda é bem sucedida, mas é infeliz e faz das pessoas que trabalham com ela, seres igualmente infelizes e constantemente ansiosos por uma aceitação sua. Além do mais a forma como ela trata, por exemplo, Andy não é exatamente um exemplo de empoderamento feminino. Isso não é exatamente um problema de Miranda, mas sim de uma constante pressão social - também em cima dela - para manter esse patamar e, junto a isso, uma grande exaltação que as pessoas constroem por sua personalidade. Isso é claro no filme.
Para quem acha que Nate é o vilão, definitivamente deveria ler o livro, pois seu personagem é bem mais trabalhado e podemos ver inúmeras vezes sua dedicação e apoio pela carreira de Andy. Contudo, sua reação e brigas geradas com a namorada tem muito mais a ver com uma responsabilidade afetiva do que necessariamente um machismo do personagem. O que acontece é que Andy começou a se afastar dele de forma súbita e isso afeta os sentimentos de qualquer pessoa que minimante ama a outra.
Por fim, o que temos aqui não são vilões, mas uma exaltação extremada da busca pelo êxito profissional com toques de desumanidade que aos poucos fez Andy sacrificar as coisas que ela amava em detrimento dessa glamourização constate do sucesso como algo a ser buscado acima de tudo, até mesmo da nossa própria felicidade. São inúmeras as passagens no livro e filme que demostram como Andy se torna a cada dia um pessoa mais infeliz e desacreditada com seu trabalho. Felizmente nossa protagonista percebe isso antes de ser tarde demais.
O Diabo Veste Prada é um filme extremamente inteligente, divertido e que até hoje traz questões a serem debatidas. Dessa forma, o longa se apresenta como um filme atual, que ainda vai agradar várias e várias gerações futuras, carregando seu título como clássico pop, por atuações impecáveis marcando uma geração de fãs.
- Pedro Silva
O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada)
Ano: 2006
País: EUA
Classificação: 12 anos
Duração: 109 min Direção: David Frankel Roteiro: Alinne Brosh Mckenna
Gênero: Comedia
Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Adrien Grenier, Stanley Tucci, Daniel Sunjata, John Rothman, Simon Baker.
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