O Poço: Mudanças Nunca São Espontâneas
- +Q90m
- 11 de abr. de 2020
- 8 min de leitura
O Poço surge em um momento histórico único. Estamos passando por uma experiência epidêmica onde a "solidariedade espontânea” nunca foi tão necessária. O poço traça uma premissa que questiona a organização capitalista, com alguns com muito e muitos sem nada.

O Poço nos apresenta Goreng (Ivan Massagué), um homem que escolhe ir à CVA (Centro Vertical de Autogestão) – mas conhecido popularmente como Poço - com o intuito de parar de fumar. Lá, ele conhece Trimagasi (Zorion Eguileor), seu “companheiro de cela”. A prisão mantem duplas de “prisioneiros” em vários níveis. Cada “cela” tem o mesmo formato com a característica de um grande buraco retangular no centro onde uma plataforma de comida passa uma vez ao dia. Todos os dias os prisioneiros dos níveis abaixo tem que esperar a mesma plataforma descer pelos níveis de cima para enfim poderem se alimentar.
Nos últimos anos, acompanhamos vários longas-metragens cujo principal foco é as críticas sociais, sendo esse novo subgênero sendo denominado de “realismo social”. O Poço, mais recente obra da Netflix, a meu ver, se enquadra nesse gênero. É um filme com uma nítida reflexão sobre a sociedade capitalista e sua divisão em classes sociais, bastante impactante e incomodo – ideologicamente e visualmente falando. Antes de começar a fazer um leitura mais crítica trazida e desenvolvida pelo filme, pretendo falar sobre alguns aspectos técnicos. A começar pelo cenário e figurino, o filme entrega algo simples, mas que é completamente eficiente para nos inserir de forma única na sua proposta. Nos sentimos próximos aos personagens, com uma sensação claustrofóbica e, ao mesmo tempo, intensificando sentimentos de tristeza e desanimo assim como as pessoas naquele lugar. A fotografia também tem seu destaque com relação a esse objetivo de criar um ambiente escuro e desconfortável. O Poço também entrega ótimos efeitos práticos de violência, horror e gore. O filme vai agradar bastante as pessoas que gostam daquela violência mais explicita – assim como eu.
A narrativa do filme tem até alguns momentos expositivos, mas isso de certa forma é importante, para estabelecer para quem assiste as regras do lugar. Contudo esses diálogos não são frequentes, o que nos dá a possibilidade de pensar e se questionar junto ao protagonista sobre as ações da administração e dos outros personagens. O filme é carregado de alguns mistérios e questões sem respostas, mas que de nenhuma maneira deixa a experiência do filme ruim. Goreng é inserido em vários cenários e experiências dentro do Poço – que vão ser problematizadas nas partes a seguir – que dá a compreensão ampla das várias potencialidades e situações que aquele lugar pode desenvolver. Contudo o roteiro não é perfeito e carrega consigo algumas pontas soltas que acabamos percebendo quando nos questionamos sobre o Poço e suas regras.
As atuações são outro ponto forte em O Poço. Todos os atores entregam seus personagens com maestria e competência. Zorion Eguileor nos concede um personagem, inicialmente antipático, egoísta, mas que de certa forma consegue conquistar nossa atenção. Enigmático e misterioso, Eguileor apresenta todas as camadas de vivências que Trimagasi aprendeu com suas experiências no Poço. Antonia San Juan é Imoguiri, uma personagem que, a meu ver, é essencial para a trama. Ela representa a descrença com a CVA (Centro Vertical de Autogestão) que ela mesma um dia acreditou ter a possibilidade de desenvolver uma “solidariedade espontânea” entre os "detentos". Ela, diferente de Trimagasi, representa o altruísmo, a contradição que mostra que a estrutura do Poço não é totalmente corruptível. Seu final é um grande reflexo de sua imensa frustração. Alexandra Masangkay, a Miharu talvez seja a personagem mais misteriosa. Masangkay dá a sua personagem um olhar frio e enigmático único. Emilio Buale, o Baharat é aquele personagem fundamental, um homem esperançoso que pensa em fugir dali e facilmente aceita participar da mudança do sistema proposta por Goreng.
Contudo, o grande foco está em nosso protagonista, interpretado maravilhosamente por, Ivan Massagué. O ator entrega um personagem carismático e até um pouco idealista demais com o funcionamento da CVA, mas Massagué consegue desenvolver de forma brilhante as mudanças de Goreng a partir das suas experiências e frustrações dentro do Poço. É um ator pouco conhecido, mas que se apresentou a todos como um futuro grande nome no mundo das atuações.
PODE CONTÉM SPOILER
A premissa do filme se resume a uma plataforma de comida/alimentação – uma das nossas necessidades mais básicas – que desce para suprir a fome de 600 pessoas. Essa plataforma permanece por dois minutos em cada nível sendo esse o tempo em que “detentos” têm para comer. Acontece que por ser um sistema de prisão vertical, quem se encontra nos primeiros níveis tem mais privilégios e fartura em relação aos que ficam nas plataformas medianas e mais baixas. Percebemos, durante a narrativa, que geralmente todos ali passam um mês em uma posição mais favorável e outro mês em uma posição de subsistência (em níveis superbaixos). Essa instabilidade por si só seria um bom motivo para que todos ali desenvolvessem a tão esperada “solidariedade espontânea”, mas para a nossa decepção – e de Imoguiri – isso nunca acontece. Cabe a nós prensarmos o porquê disso.
Se todo mundo comesse só o que precisa...
Ao pensar nessa possibilidade como obvia, Goreng é “xingado” de comunista. Contudo, essa é uma das primeiras questões estabelecidas já no trailer de "O Poço" e que Imoguiri, por exemplo, acredita veemente. Todavia, o que para nós parece ser obvio, não é tão simples assim para as pessoas naquele local. Isso por si só já é uma grande sacada do filme. Pensamos nessa solução para os personagens presos ali, mas não para a nossa própria realidade.
A resposta para essa contradição, talvez comece na própria reflexão da organização e funcionalidade ideológica de sociedades divididas em classe, como o capitalismo, ou, no caso do filme, na funcionalidade do Poço.

"Há três tipos de pessoas. As de cima, as de baixo, e as que caem"
Inicialmente, proponho pensar quem são os considerados “de cima” e quem são os “de baixo”. Em uma primeira análise suponhamos que os “de cima” sejam as pessoas dos níveis superiores. Entretanto, uma segunda forma de olhar o filme e pensar os “de cima” são, na verdade as elites/administradores que desenvolveram e que controlam o Poço. São esses sujeitos - privilegiados e protegidos -, que controlam todos os meios de subsistência do lugar (água, comida, clima, etc.).
Dessa forma, todos os “detentos” – do 1° ou 333° nível – podem ser considerados os “de baixo”. Contudo essa visão distorcida de quem são os “de cima” estabelece uma falsa ideia - para aqueles que estão nos níveis mais altos -, de que eles são privilegiados ou melhores que os outros. Essa sensação é reforçada pela fantasia – e também pela distribuição desigual da comida - de que, estando nos níveis mais altos é justificado comer mais, pois a sua posição “lhes permite” tal “direito” – como dito por Trimagasi em dado momento. Esse comportamento de “superioridade” por conta da posição em determinado nível é expresso em diversos momentos no filme. Mesmo com a grande rotatividade em que todos são colocados no Poço, os que ficam acima compram esse falseamento de “superior e inferior” reproduzindo, em certa medida, uma lógica individualista/meritocrática – tão presente no capitalismo. Desse modo, todos ali – principalmente os mais antigos - tem uma dificuldade de se reconhecem entre os que se encontram em níveis mais baixos. A estrutura vertical estabelece essa sensação de hierarquia.
Partindo desses paramentos conseguimos compreender essa contradição representada no filme, do não reconhecimento de sua posição social, por uma fantasia de que há uma superioridade entre os primeiros níveis, quando na verdade estão todos no mesmo Poço.
A Fome
Como já mencionado, o principal recurso no Poço é a comida, que nesse ambiente funciona como o bem mais valioso de todos ali, pois é o que garante a vida. A fome é a necessidade de comer é, antes de tudo, uma das primeiras necessidades materiais que nos seres humanos precisamos para se manter em pé. Essa necessidade essencial e a falta de comida para suprir a fome limitam as opções para aqueles que estão nos níveis inferiores. Se você tira de um grupo os recursos mínimos para se manter vivos, logo a única opção restante é a barbárie. Então, as pessoas dos níveis mais baixos não precisariam tomar medidas extremas de sobrevivência – como assassinato e canibalismo – se a distribuição funcionasse igualmente. Essa barbárie não surge do nada, mas é desencadeada pela privação completa dos meios de vida. Isso não é apenas ficção, pois é possível estabelecer comportamentos agressivos e de violência quando os seres humanos são privados do mínimo para viver.
A própria lógica do Poço reforça o individualismo, principalmente nos níveis mais baixo onde a loucura toma conta e as pessoas ali tem que tomar medidas extremas para sobreviver. Quando mudadas de posição, para os níveis mais altos, esses indivíduos apenas reproduzem a lógica da escassez. “Antes eu não tinha, agora eu tenho demais e vou me certificar de compensar o que me foi negado”.
Solidariedade Espontânea
Imoguiri revela a Goreng que a CVA surgiu com o proposito de desenvolver a “Solidariedade Espontânea”. Dessa forma as pessoas iam aprender a ser solidárias e a pensar no próximo ao viver aquela experiência. Infelizmente Imoguiri - que trabalhava para a administração -, morre sem ver esse objetivo que ela tanto acreditava ser comprido. Quando Goreng decide botar fim ao sistema e mudar a lógica perversa do Poço junto a Baharat, ambos se colocam como guardiões da plataforma para que ela permaneça intacta até o nível 51° - onde geralmente a comida acaba -, para que a comida chegue até os níveis mais baixos. Contudo, no processo de proteger a comida, Goreng e Baharat usam da violência para manter seu plano. Se por um lado Imoguiri espera um voluntarismo espontâneo das pessoas, por outro, Goreng se usa de uma forma mais autoritária para mudar a lógica do lugar. O questionamento que surge aqui é: Podemos falar de uma solidariedade espontânea?
Bom, acho que essa questão já foi respondida. Em um sistema como o Poço, que apenas reproduz tendências ao egoísmo, individualismo, violência, etc. não pode desenvolver uma solidariedade puramente espontânea. Os diversos pedidos de Imoguiri aos detentos abaixo do seu nível - todos sem sucesso - são um reflexo de como a escassez total provoca um efeito oposto quando não acompanhado de uma ideologia contrária aquela realidade. O espontaneísmo por si só não existe sem está acompanhado de ideias para a formação de uma solidariedade.

"A educação vem primeiro, convencer antes de vencer"
Ambos têm formas extremas de resolver os problemas do lugar. Um espontaneísmo por si só não pode ocorrer, e usar da violência para mudar algo é igualmente ineficiente para mudar a forma de pensar das pessoas. Quando o Sr. Brambang (Eric Goode) diz essa frase acima é justamente com a tentativa de alertar nossos heróis de que nada muda de verdade sem, conjuntamente uma direção/formação. Sem a educação, qualquer outra medida se torna autoritária e ineficiente. Nem Imoguiri nem Goreng estabeleceram o diálogo e formação junto as pessoas no poço, todas as suas tentativas foram distanciadas da realidade do Poço. Sem a formação previa de um consenso/convencimento, como proposto por Sr. Brambang, não se pode conquistar a direção necessária para estabelecer uma nova hegemonia e forma de pensar. Sem o elemento de formar e educar, não se pode criar novas relações sociais e culturais. É por essa falta de compreensão - da relação entre instruir e praticar -, que o filme, e paralelamente seus personagens caem em uma tendência a críticas tão comuns a outras ideologias como o comunismo ou socialismo. Resumir essas ideologias a mero autoritarismo e violência é se distanciar dessa discussão e esquecer as convicções e visões de mundo propostas pelas mesmas.
O Poço é um filme rico que traz consigo diversos debates para se pensar tanto a realidade atual, como uma forma de superá-la. Infelizmente sua tentativa de críticas as ideologias fora do capitalismo, junto a seus personagens acabam caindo em um fatalismo como se não houvesse forma de superação do funcionamento da CVA ou do sistema posto.
- Pedro Silva
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O Poço (El Hoyo)
ANO: 2019
PAÍS: Espanha
CLASSIFICAÇÃO: 18 anos
DURAÇÃO: 94 min
DIREÇÃO: Galder Gaztelu-Urrutia
ROTEIRO: Pedro Rivero, David Desola
ELENCO: Zorion Eguileor, Ivan Massagué, Antonia San Juan
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