Parasita: Quando as luzes acendem, as baratas se escondem
- +Q90m
- 15 de fev. de 2020
- 7 min de leitura
Atualizado: 26 de jun. de 2020
Bong Joon-ho nos apresenta uma família de desempregados junto a um roteiro cheio de reviravoltas sem apelar para o exagero, resultando na conquista de várias estatuetas do Oscar, incluindo o de Melhor Filme. Uma conquista histórica por ser o primeiro filme de língua não inglesa a vencer a categoria.

O longa conta a história dos Kim, uma família que vive em um porão na miséria e que sobrevive por meio de trabalhos temporários. Contudo, com a visita de um amigo da família esses indivíduos veem a oportunidade de melhorar sua condição de maneira rápida e confortável adentrando a casa de uma família rica, tomando até mesmo medidas extremas se necessário.
Parasita é simplesmente um filme fortíssimo e que nos atinge de várias maneiras, não foi a toa o filme ter ganhado - também - o prêmio de Melhor Roteiro Original. Muita gente pensa que é um filme de terror pelo o seu título, mas não é, deixaremos explicado ao longo do texto. O foco principal é a desigualdade social, sendo representado pela relação de duas famílias com suas realidades completamente diferentes. Primeiro, somos expostos bem secamente a vida dos Kim. Um grupo que mora em um porão e que vive de forma parasitaria do Wi-Fi dos outros, ou que até mesmo se aproveitam da esterilização em via pública para fazer isso na própria "casa" – quase os matando com o veneno. No outro extremo, temos os Park, que moram em uma casa grande e extremamente confortável, cuja única preocupação é dar conta de Da-song (Jung Hyun-joon), o casula da família. A direção é eficiente em mostrar as duas realidades sem diálogos expositivos ou coisas do gênero. O espectador é conduzido a sentir o que a pobreza oferece e o que ela impõe e submete os sujeitos que nela vivem. É belíssimo como o filme trabalha o confronto pobreza e riqueza apenas com a apresentação dos locais ou das situações em que os personagens passam cotidianamente. A residência dos Park é uma coisa magnifica que nem se compara ao local onde Ki-woo (Choi Woo-shik) é obrigado a morar, onde até mesmo a privada da casa fica a cima de suas cabeças. Se os Kim não tem como pagar os estudos dos filhos, mesmo que talentosos e inteligentes, os Park tem dinheiro suficiente para isso e ainda manter os mimos dos filhos. A cena do quadro produzido por Park Da-song (Jung Hyun-joon) passa essa sensação de como a burguesia se relaciona, por exemplo, com a arte, como algo magnifico, que deve ser admirado pelo simples motivo de ter sido produzido por eles mesmos.

A narrativa que o diretor (Bong Joon-ho) desenvolve com o roteiro constitui uma estruturação incrível que nos imerge na realidade da família Kim de forma imediata. O filme consegue mesclar elementos de humor, suspense e drama de uma forma única. Outro mérito que o roteiro merece é a construção dos seus próprios personagens e suas relações, o filme não se preocupa em apresenta um lado bom ou ruim, mas as contradições de ambos os lados. Então o sentimento que o filme passa durante todo o tempo é uma tensão por você mesmo não saber para que lado torcer. Uma hora, você torce pelos Kim, outra hora você teme pela família Park. Isso muda e muda durante todo o filme, fazendo com que o espectador se importe com todos os personagens. Existe durante todo o longa uma apresentação dos perfis de ambas as famílias. Com suas duas horas de duração é praticamente inexistente uma cena onde a família Park esteja reunida. A intensão é mostrar como as relações cotidianas em famílias ricas se tornam, de certo modo, mais estranhadas com os próprios integrantes. O patriarca trabalha e mantém tudo. A esposa é submissa tendo sua vida limitada a organização da casa e o cuidado dos filhos e do próprio marido. Em contra partida, os Kim, por conta da constante necessidade e da luta pela sobrevivência em que vivem mediante a extrema pobreza, são mais unidos, logo, suas relações são bem menos estranhadas de um para o outro. São inúmeras as cenas em que temos esses personagens juntos, tentando resolver seus problemas como um grupo codependente um do outro. Isso de certa forma justifica o comportamento deles e a decisão de empregar toda a família na casa dos Park futuramente. A necessidade os une. A cena em que eles estão reunidos na casa dos Park, quando Kim Ki-taek (Song Kang-ho) tenta bater na esposa e ela revida, reflete essa relação de certa igualdade entre os dois e não uma submissão que o poder financeiro desenvolve no outro casal/família.
Pode Conter Spoiler
Os Sujeitos Sociais e a Lógica da Necessidade
Como dito anteriormente, Parasita trabalha seu roteiro em vários níveis de profundidade, tanto sociais como subjetivos. O que o filme quer provoca é a reflexão: Até onde é aceitável e compreensível a tomada de decisões ruins de sujeitos que prejudicam outros? Acontece que a narrativa trabalha e apresenta essa relação entre objetividade (sociedade) e subjetividade (individuo) de forma eficiente de modo a mostrar como essa relação interfere na vida e nas decisões individuais, até mesmo quando as ideias da classe dominante são internalizadas pelos sujeitos marginalizados.
Como isso aparece? Bem, o filme desenvolve - no seu primeiro e longo ato - bastante essa relação moral e ética a partir das ideias propostas pelo próprio capitalismo. Exemplo: No começo do filme Kim Ki-jung (Park So-dam) falsifica um diploma para o irmão cujo objetivo é ajudá-lo a conseguir o emprego de tutor. Até aí "tudo bem" dizemos a nós mesmos, pois, como tivemos uma introdução dura da realidade dos Kim, essa atitude se torna aceitável, pois entendemos que a necessidade de sobreviver que esta determinando, justificando esse tipo de atitude. Porém, nosso olhar pela família muda quando eles começam a prejudicar os outros funcionários da casa para conseguirem ser contratados e adentrarem na família um a um. É como se os Kim estivessem ultrapassando uma linha que automaticamente os torna errados e criminosos, pois agora eles deixaram de ser uma família em uma situação de extrema pobreza para serem um grupo de gananciosos em busca de uma vida melhor parasitando entre a família Park.
O problema é que as vezes esquecemos de pensar sobre a lógica em que aqueles indivíduos estão inseridos. Eles passam boa parte da vida tendo que pensar no outro dia, pois quem vive na pobreza, não pode se dar ao luxo de adiar pesamentos como "o que eu vou comer amanhã?" Então, qualquer atitude tomada por eles, é arrastada por essa lógica imposta pelo próprio sistema causador da desigualdade. Ou seja, a ganância que tornam eles egoístas mais a frente, se origina por meio da própria realidade social, não apenas algo puramente subjetivo. Essa ganância desenfreada por mais e mais é o processo de aprofundamento da ideologia capitalista e de alienação. Isso é questionado até mesmo pelos personagens quando os Kim estão reunidos na casa dos Park. Essa cena em participar, antes da reviravolta do segundo ato – e a propósito, que baita reviravolta – é linda e também bastante instigante para pensar o que faz a ganância e o egoísmo.

"Ela é rica, mas é bondosa."
"Não, ela é bondosa porque é rica... Ricos não têm rugas"
Toda essa discussão é aprofundado com mais clareza no conflito do segundo ato quando o segredo de Gook Moon-gwang (Lee Jung-eun) é revelado. A lógica da necessidade se converte a uma falta de consciência da sua própria classe. Agora os Kim, pensando em não perder o (pouco) que conquistaram, acabam deixando de se reconhecer na antiga empregada da casa que também tomou decisões e atitudes por desespero e necessidade. Na alienação, envés de uma união dos dois grupos, o que acontece é uma corrida de eliminação de um pelo outro. É o mesmo que ocorre com o marido de Gook Moon-gwang. Ele já está tão alienado do próprio processo de objetificação humano imposto pelo sistema capitalista, que ele não se conhece como uma pessoa, e olha para o capitalista com uma admiração cega. O próprio individuo internalizou e inverteu a lógica não reconhecendo sua exploração, mas aceitando sua posição de subalterno perante o senhor.
Afinal, quem é o verdadeiro parasita?
Com um primeiro olhar desavisado, você vai acreditar que o filme fala sobre a relação parasitaria dos Kim sobre os Park. Entretanto como dito várias vezes, o filme não fica apenas no raso da realidade, mas mergulha até a raiz dessas contradições. O que o filme levanta é justamente a relação parasitaria de uma classe sobre a outra. Sem os Kim não existe os Park e vice-versa. Ambos precisam uma do outro para sobreviver. Se os Park podem garantir o meio de subsistência daquela família miserável, esta é a única que pode suprir as necessidades e privilégios desfrutados pela família rica. A relação é ida e volta e não apenas unilateral como pode parecer. Os ricos precisam sugar a vida de quem nada tem para se manter, só que nunca admitem isso. É por isso que a sacada do "cheiro de pobre" é tão forte apesar de ser tão simples. A classe dominante não quer precisar desses indivíduos miseráveis, mas essa elite não tem outra opção. No filme essa questão é retratada pelos inúmeros comentários de inferiorização dos Kim pelo seu cheiro. Isso chega a tal ponto de humilhação que desencadeia o tenso e triste ato final tão belamente executado. Indo mais a fundo podemos até mesmo dizer que o causador dessa lógica parasitaria entre esses indivíduos nada mais é do que um reflexo do processo desumanizador imposto pelo sistema capitalista que objetifica o ser humano a um nível de estranhamento com o próximo tão grotesco que ninguém pensa no outro como um igual.
Parasita é um verdadeiro show de realismo social, que não critica apenas a desigualdade social, mas destina um verdadeiro soco no sistema capitalista, não só na aparência, mas na sua essência. Não foi surpresa o filme ter sido o ganhador dos prêmios mais significantes na noite do Oscar de 2020.
- Pedro Silva e Breno Muniz
Parasita (Parasite)
Ano: 2019
País: Coréia do Sul
Classificação: 16 anos
Duração: 132 min
Direção: Bong Joon- ho
Elenco: Song Kang-ho, Jang Hye-jin, Choi Woo-shik, Park So-dam, Cho Yeo-jeong
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